Grandes Nomes

Biografias, entrevistas, fatos de mulheres e homens que marcaram a história da Igreja.

São José

Por Ernest Hello

 

Fonte: www.quadrante.com.br

 

São José, a sombra do Pai!: Aquele sobre quem se projeta a sombra do Pai, densa e profunda. São José, o homem do silêncio!: Aquele que mal é tocado pela palavra. O Evangelho só nos diz isto dele: Era um homem justo. Sempre sóbrio em palavras, o Evangelho é ainda mais sóbrio do que de costume ao falar de São José. Dir-se-ia que este homem, envolto em silêncio, inspira silêncio. O silêncio de São José produz silêncio ao redor de São José.

O silêncio é o seu louvor, o seu modo de ser, a sua atmosfera. Onde está José, reina o silêncio. Dizem alguns viajantes que, quando a águia levanta vôo, o peregrino sedento adivinha a existência de uma fonte no lugar do deserto onde se projeta a sombra dessa ave; escava então a terra nesse lugar, e eis que a água brota. A águia dissera-o na sua linguagem, ou seja, voando, e dessa forma a beleza se converteu em utilidade: quem sente sede, compreendendo a linguagem da águia, busca a fonte no meio da areia e encontra água.

Haja o que houver de verdade natural nesta preciosa lenda, ela é fecunda em grandes símbolos. Quando a sombra de São José se projeta em alguma parte, o silêncio não está longe dali. Cave-se a areia, símbolo da natureza humana, e brotará a água. E a água será aquele silêncio profundo no qual todas as palavras estão contidas; aquele silêncio vivificante, refrescante, apaziguador, saciante: o silêncio substancial. Onde se projeta a sombra de São José, a substância do silêncio, insondável e pura, brota do mais profundo da natureza humana.

Não há nenhuma palavra sua registrada na Sagrada Escritura. Mardoqueu, que fizera Ester florescer à sua sombra, é um dos precursores do Santo; Abraão, pai de Isaac, representa também o pai adotivo de Jesus; e José, filho de Jacó, é a sua imagem mais expressiva. Este primeiro José foi, no Egito, o guardião do pão natural; o segundo José foi, no Egito, o guardião do Pão sobrenatural. Ambos foram os homens do mistério e foi o sonho que lhes comunicou os seus segredos, pois ambos foram instruídos em sonhos e assim adivinharam coisas ocultas. Assomados ao abismo, os olhos de um e outro viam através das trevas; viajantes noturnos, descobriram os seus caminhos através dos mistérios da sombra. O primeiro José viu o sol e a lua prostrados diante dele; o segundo José dava ordens a Maria e a Jesus: Maria e Jesus obedeciam-lhe.

Que abismo interior não devia trazer no seu íntimo o homem que se via obedecido por Jesus e por Maria, o homem que convivia familiarmente com esses mistérios e a quem o silêncio revelava as profundidades do seu segredo! Quando serrava as suas madeiras e via o Menino trabalhar sob as suas ordens, os seus sentimentos, aprofundados por essa situação inaudita, mergulhavam no silêncio que os aprofundava ainda mais. E da profundidade onde vivia com o seu trabalho, teve a fortaleza de não alardear perante os homens: “O Filho de Deus está aqui”.


O seu silêncio parece uma homenagem ao inefável: é como a abdicação da Palavra diante do Insondável e do Imenso. O Evangelho, que tão poucas palavras diz, tem os séculos por comentário; os séculos aprofundam nas suas palavras e fazem brotar da pederneira a chispa de luz viva. É que os séculos têm por missão trazer à luz os segredos. São José foi desconhecido durante muito tempo; porém, desde Santa Teresa de Ávila, especialmente encarregada de revelá-lo aos cristãos, já é muito menos ignorado.

Curiosamente, cada século tem dois aspectos – o cristão e o anticristão, opostos por um contraste direto e admirável. O século XVIII, século do riso, da frivolidade, da leviandade, do luxo, teve um São Bento José Labre. Esse mendigo chegou a alcançar a glória, até a glória humana, ao passo que os que brilharam no seu tempo caíram numa abjeção histórica incomparável, diante da qual são glórias as comuns abjeções. Não sei o que Deus terá feito com as almas de muitos que brilharam no século XVIII; mas a ciência humana, apesar da sua imperfeição e da sua lentidão, fez justiça aos seus nomes: praticamente todos os representantes do século XVIII estão enterrados num especial esquecimento. No entanto, José Labre, que é a contradição viva desse século, brilha até mesmo aos olhos dos homens; e aqueles mesmos que tentam ridicularizá-lo se vêem obrigados a considerá-lo uma personalidade histórica.

O nosso século XIX é, acima de todos, e em todos os sentidos do termo, o século da Palavra. A Palavra, boa ou má, enche a nossa atmosfera. Uma das coisas que nos caracterizam é o barulho. Nada mais barulhento do que o homem moderno: ama o barulho, gosta de produzi-lo ao redor dos outros, e gosta, sobretudo, que os outros o produzam ao seu redor. O barulho é a sua paixão, a sua vida, a sua atmosfera: a publicidade substitui nele muitas outras paixões que morrem afogadas nessa paixão dominante, a menos que vivam dela e se alimentem da sua luz para brilhar com maior violência. Este nosso século fala, chora, grita, louva-se e desespera-se: e tudo converte em exibição. Detesta a confissão secreta e explode a cada momento em confissões públicas. Vocifera, exagera, ruge.

Pois bem, foi este estrepitoso século XIX que assistiu à elevação e à exaltação da glória de São José, que acaba de ser nomeado oficialmente padroeiro da Igreja Universal (*), tornando-se mais conhecido, invocado e honrado do que em qualquer outra época! Foi por entre raios e trovões que se produziu, insensivelmente, a revelação do seu silêncio.
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(*) São José foi declarado padroeiro da Igreja Universal em 1847 pelo Papa Pio IX (N. do E.)
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Até que ponto São José penetrou na intimidade de Deus? Não o sabemos. Mas, no meio do tumulto que nos rodeia, sentimo-nos invadidos pelo sentimento dessa imensa paz em que parece ter deslizado toda a sua vida: e parece que este contraste quer revelar-nos a oculta grandeza das coisas.

Muitos que nada têm a dizer falam, e sob o barulho da sua linguagem e a turbulência da sua vida dissimulam o nada das suas idéias e dos seus sentimentos. E São José, que tanto tem a dizer, não fala: guarda dentro de si as grandezas que contempla: dentro dele erguem-se montanhas sobre montanhas, e as montanhas são silenciosas.

Os homens são arrastados pelo feitiço das bagatelas. Mas São José, entre as tribulações da sua viagem ao Egito, naquela fuga de Jesus perseguido já desde o início, permanece em paz, dono da sua alma e do seu silêncio. No meio dos pensamentos, dos sentimentos, dos tumultos, dos incidentes e das dificuldades dessa viagem, o representante de Deus Pai foge, como se fosse ao mesmo tempo fraco e culpado: foge para o Egito, para o país da angústia, retorna ao lugar terrível do qual os seus antepassados tinham saído sob a proteção de Deus. Percorre na direção contrária o caminho percorrido por Moisés e, enquanto se dirige para o Egito e permanece no Egito, lembra-se de quando procurou lugar na pousada e não o encontrou.


Quia non erat locus in diversorio, porque não havia lugar para eles na pousada!

A história do mundo está nessas poucas palavras. Mas ninguém lê essa história tão lacônica, tão substancial, porque lê-la significa compreendê-la, e toda a sucessão dos séculos não é suficientemente longa para sondar tudo aquilo que está escrito nessas palavras: Não havia lugar na pousada.

Houve lugar para outros viajantes, mas para aqueles não. O que não se nega a ninguém é negado a Maria e a José: e Jesus Cristo ia nascer em poucos minutos! O Esperado das nações chamava às portas do mundo... e não houve lugar na pousada para Ele!

O Panteão romano, pousada dos ídolos, tinha lugar para trinta mil demônios com nomes supostamente divinos; e Roma não teve lugar para Jesus Cristo no seu Panteão. Parecia adivinhar que Jesus Cristo não queria semelhante lugar nem semelhante participação.

Quanto mais insignificante é uma pessoa, mais facilmente se instala. Aquele que traz em si um valor de humanidade tem mais dificuldade para instalar-se, sobretudo se trouxer em si qualquer coisa de admirável e próximo de Deus; mas quem leva o próprio Deus não encontra lugar. Todos parecem adivinhar que necessita de um lugar demasiado grande, e, por mais que Ele queira fazer-se pequeno, não consegue desarmar o instinto dos que o rechaçam, não consegue persuadi-los de que se assemelha aos outros homens; por mais que oculte a sua grandeza, ela brilha à sua revelia e, à sua proximidade, as portas fecham-se instintivamente.

Essa pequena frase, que diz apenas: Porque não havia lugar para eles na pousada, é tanto mais terrível quanto mais simples. Não é a inflexão da queixa, da censura, da recriminação: obedece ao tom natural do relato, que suprime toda a reflexão, pois o Evangelho deixa que nós mesmos façamos as nossas reflexões: Quia non erat locus in diversorio.


E o que dizer dessa palavra diversorio, que indica multiplicidade? Os viajantes comuns, os homens que fazem número, encontraram lugar na pousada. Mas Aquele que Maria trazia consigo ia nascer num estábulo, porque era Ele quem iria dizer um dia: “Uma só coisa é necessária”, unum est necessarium.

O diversorio foi-lhe fechado! Seria necessário que um raio iluminasse a nossa noite e nos mostrasse todos os séculos de uma só vez, concentrados num só ponto e num só instante, para que essa frase tão curta, tão pequena, tão simples, nos surgisse tal como é: para que nos surgisse tal como é essa pousada na qual Maria e José não encontraram lugar. Seria necessário um raio que iluminasse esse abismo. Mas, que aconteceria se os nossos olhos se abrissem?

Faber pergunta-se que pensariam as mães dos Inocentes que pouco tempo depois foram degolados. Pergunta-se mesmo se não meditariam sobre o homem e a mulher que não haviam encontrado lugar, e sobre o Menino que não tivera senão uma manjedoura para nascer. Pois a terra inteira também lhe negaria em breve um lugar para morrer: ao fim de alguns anos, iria cravá-lo no alto de uma cruz.

A terra foi como a pousada: inospitaleira.


São José cumpre na realidade o que os outros cumpriram em figura. Depois de ter guardado o Pão da vida no Egito, realizando aquilo do qual o primeiro José fora a sombra, retorna a Nazaré e faz o mesmo que Josué fizera.

Josué havia detido o curso do sol. Aquele que era a Luz do mundo abandona Maria e José para ir a Jerusalém defender a causa de seu Pai; mas Maria e José vão encontrá-lo ali e fazem-no retornar a casa. Cristo, o Sol, que parecia ter iniciado o seu curso, fica detido durante dezoito anos. Dos doze aos trinta anos, Jesus não sai da sua casa.

Com que idade morreu José? Não se sabe; mas parece que já tinha morrido quando Jesus abandonou a sua casa. E naquela casa, o que se terá passado? Que mistérios se terão desvelado aos olhos desse homem a quem Jesus obedecia? O que veria José nos atos de Jesus Cristo, nesses atos que, pela sua própria simplicidade, devem ter assumido aos seus olhos dimensões incomensuráveis? O que não veria no menor dos seus movimentos? O que não veria na sua atividade aparentemente tão limitada? O que não veria na sua obediência? Como terá soado no fundo da sua alma esta frase: “Eu mando e Ele obedece: eu ocupo o lugar de Deus Pai”?

E, por trás dessa frase, debaixo dela, no fundo, devia existir algo mais profundo que ela mesma: o silêncio que a envolvia; e a frase que teria dado forma ao silêncio talvez não tenha chegado a formular-se nunca. Talvez estivesse oculta no silêncio que a continha.

Quando as palavras humanas se reúnem, depois de terem sido sucessivamente chamadas pelo homem e de se terem declarado, uma após outra, impotentes para expressar o fundo da sua alma, então o homem cai de joelhos e do fundo do seu abismo ergue-se o silêncio. E esse silêncio que sai do fundo do abismo ultrapassa as nuvens e sobe até o trono dAquele que tomou as trevas por retiro: sobe ao trono de Deus com os perfumes da noite.

Esse grande silêncio da natureza que se chama sonho foi o templo onde os dois Josés ouviram as vozes do céu. O primeiro José foi vendido por causa de um sonho que excitou a inveja e o ódio dos seus irmãos. Por um sonho foi levado para o Egito, e também em sonhos recebeu São José a ordem de fugir para o Egito.

A seguir, mandou, e a Mãe e o Menino obedeceram. Parece-me que essa autoridade inspirou a São José idéias prodigiosas. Parece-me que o nome de Jesus devia conter para ele segredos admiráveis. Parece-me que, quando nEle mandava, a humildade do Menino assumia dimensões gigantescas que os sentimentos conhecidos não podiam medir. Essa humildade devia reunir-se ao silêncio do Patriarca, no seu lugar, no seu abismo. E esse silêncio e essa humildade deviam enaltecer-se mutuamente.

São José escapa à nossa apreciação, que não pode medir a altura das suas funções. Deus, tão ciumento, confiou-lhe a Santíssima Virgem. Deus, tão ciumento, confiou-lhe Jesus Cristo. E a sombra do Pai caía todos os dias sobre ele, tão densa que as palavras mal se atreviam a aproximar-se dela.


 

Ernest Hello
(1828-1885) formou-se em direito e dedicou-se depois ao jornalismo e à literatura. Espírito original e profundo, foi uma das principais figuras do pensamento católico no século XIX.


Arquivo edição 7

 

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II NA SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO

8 de dezembro de 1998

1. «Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Foi assim que n'Ele nos escolheu antes da constituição do mundo, para sermos santos e imaculados diante dos Seus olhos» (Ef 1, 3-4).

A Liturgia hodierna introduz-nos na dimensão daquilo que era «antes da constituição do mundo». Para aquele «antes» nos chamam outros textos do Novo Testamento, entre os quais o admirável Prólogo do Evangelho de João. Antes da criação, o eterno Pai escolhe o homem «em» Cristo, Seu Filho eterno. Trata-se de uma escolha que é fruto de amor e exprime amor.

Por obra do Filho eterno que Se fez Homem, a ordem da criação foi ligada para sempre à da redenção, isto é, da graça. É este o sentido da Solenidade hodierna a qual, de modo significativo, é celebrada durante o Advento, tempo litúrgico em que a Igreja se prepara para comemorar no Natal a vinda do Messias.

2. «A criação inteira alegra-se, e não é estranho à festa nem sequer Aquele que tem o céu na mão. Os eventos de hoje são uma verdadeira solenidade. Todos se reúnem num único sentimento de alegria, todos estão penetrados por um único sentimento de beleza: o Criador, todas as criaturas, a própria Mãe do Criador, que O tornou partícipe da nossa natureza, das nossas assembleias, das nossas festas» (Nicolau Cabasilas, Homilia II sobre a Anunciação, em La Madre di Dio, Abadia de Praglia, 1997, pág. 99).

Este texto de um antigo escritor oriental adapta-se bem à festa de hoje. No caminho rumo ao grande Jubileu do Ano 2000, tempo de reconciliação e de alegria, a solenidade da Imaculada Conceição assinala uma etapa densa de fortes indicações para a nossa vida.

Como acabámos de escutar através do Evangelho de São Lucas, «o mensageiro divino diz à Virgem: "Salve, ó cheia de graça, o Senhor é contigo" (Lc 1, 28)». A saudação do Anjo coloca Maria no centro do mistério de Cristo: nela, «cheia de graça», se cumpre de facto a encarnação do Filho eterno, dom de Deus para a humanidade inteira (cf. Carta Enc. Redemptoris Mater, 8).

Na vinda do Filho de Deus todos os homens são abençoados, o maligno tentador é vencido para sempre e a sua cabeça é esmagada, a fim de que ninguém possa estar tristemente associado àquela maldição, que as palavras do Livro do Génesis há pouco nos recordaram (Gn 3, 14). Em Cristo, escreve o apóstolo Paulo aos Efésios, o Pai celeste cumula-nos de todas as bênçãos espirituais, escolhe-nos para uma santidade verdadeira, torna-nos Seus filhos adoptivos (cf. Ef 1, 3-5). N'Ele nos tornamos sinal da santidade, do amor e da glória de Deus sobre a terra.

3. Por estes motivos, a Acção Católica Italiana escolheu Maria Imaculada como rainha e especial padroeira nos seus itinerários formativos para o empenho missionário. Por esta razão, caríssimos Irmãos e Irmãs, estais aqui hoje, junto da sede de Pedro, participando na vossa décima Assembleia Nacional. Transcorreram cento e trinta anos desde a vossa fundação e comemorais neste ano o trigésimo aniversário do novo Estatuto, que traduz, em termos operativos, a doutrina do Concílio Vaticano II sobre o laicado e sobre a missão na Igreja.

Saúdo cordialmente o Assistente-Geral, D. Agostino Superbo, e o Presidente nacional, Adv. Giuseppe Gervásio, e agradeço-lhes as palavras que me dirigiram. Saúdo os venerados Irmãos Cardeais e Bispos, assim como os numerosos Assistentes diocesanos, presentes nesta celebração. Saúdo todos vós, que representais a imensa plêiade dos inscritos na Acção Católica em todas as dioceses da Itália.

4. Caríssimos Irmãos e Irmãs! A vossa missão, no limiar do terceiro Milénio, torna-se ainda mais urgente na perspectiva da nova evangelização. Sois chamados a favorecer, com a vossa intervenção quotidiana, um encontro sempre mais fecundo entre Evangelho e culturas, como requer o projecto cultural orientado em sentido cristão.

Para as Igrejas que estão na Itália, como eu já recordava no Encontro eclesial de Palermo, trata-se de renovar o empenho de uma autêntica espiritualidade cristã, para que todo o baptizado se possa tornar cooperador do Espírito Santo, «agente principal da nova evangelização» (n. 2).

Neste contexto, a vossa obra de membros da Acção Católica deve actuar-se segundo algumas direcções claras, que eu desejaria aqui evocar: a formação de um laicado adulto na fé; o desenvolvimento e a difusão de uma consciência amadurecida, que oriente as opções de vida das pessoas; a animação da sociedade civil e das culturas, em colaboração com todos os que se põem ao serviço da pessoa humana.

Para proceder segundo estas direcções, a Acção Católica deve confirmar a própria característica de Associação eclesial; isto é, ao serviço do crescimento da comunidade cristã, em estreita união com os ministérios ordenados. Este serviço requer uma Acção Católica viva, atenta e disponível, a fim de contribuir de maneira eficaz para abrir a pastoral ordinária à tensão missionária, ao anúncio, ao encontro e ao diálogo, com todos os que, mesmo baptizados, vivem uma pertença parcial à Igreja ou mostram atitudes de indiferença, de estraneidade e, quem sabe, às vezes até de aversão.

O encontro entre Evangelho e culturas possui, de facto, uma intrínseca dimensão missionária e exige - no actual contexto cultural e na vida quotidiana - o testemunho e o serviço dos fiéis leigos, não só como indivíduos, mas também como associados, ao serviço da evangelização. Indivíduos e associações, precisamente pela índole secular que os caracterizam, são chamados a percorrer a via da partilha e do diálogo, através da qual passam, todos os dias, o anúncio da Palavra e o crescimento na fé.

5. O renovado encontro entre Evangelho e culturas é também o terreno no qual a Acção Católica, como associação eclesial, pode desenvolver um específico e significativo serviço para a renovação da sociedade italiana, dos seus costumes e das suas instituições: é a animação cristã do tecido social, da vida civil e da dinâmica económica e política.

A vossa rica história mostra que a animação cristã é particularmente necessária em circunstâncias como as actuais, nas quais a Itália é chamada a enfrentar questões nodais para o futuro do País e da sua civilização milenária. É urgente procurar estratégias eficazes e dar vida a soluções concretas, tendo sempre presentes o bem comum e a inalienável dignidade da pessoa. Entre as grandes questões, nas quais é pedido o vosso empenho, devem ser recordados o acolhimento e o respeito sagrado da vida, a tutela da família, a defesa das garantias de liberdade e de equidade na formação e na instrução das novas gerações, o efectivo reconhecimento do direito ao trabalho.

6. Eis delineada, caríssimos Irmãos e Irmãs, a vossa missão, já às portas do terceiro Milénio: trabalhar para que à Itália jamais falte a esplêndida luz do Evangelho, que sempre deveis anunciar com franqueza e viver com coerência. Só assim sereis testemunhas críveis da esperança cristã e podereis difundi-la a todos.

Proteja-vos Maria, a «cheia de graça», Aquela que hoje contemplamos esplendorosa na glória e na santidade de Deus. 


Arquivo edição 6

 

O brâmane e Nossa Senhora

 

Por Jean-François Thibeault

 

Um canadense passou toda a juventude viajando pela América à procura da verdade. Sua jornada conduziu-o ao movimento Hare Krishna, e ali chegou a ser brâmane da maior comunidade no Ocidente. Depois de quinze anos construindo templos hindus, Nossa Senhora mostrou-lhe que tinha outros planos para ele.

 

 

A ascese, o fervor e a pobreza dos Hare Krishna atraíram-me para o seu movimento. Tinha-me impressionado principalmente a entrega total de si mesmos que praticavam a fim de espalhar a mensagem da Bhagavad-gita, e a riqueza das escrituras hindus havia-me fascinado.

Vivi por quinze anos numa vila Hare Krishna de cerca de 500 membros, que se estendia por uma superfície de vários quilômetros quadrados na Virginia Ocidental (Estados Unidos). Projetava-se construir ali sete templos sobre sete colinas, como na cidade indiana de Vrindavan.

 

Como primeiro discípulo do guru da comunidade, eu era o responsável pela construção desses templos. Logo que se acabou de construir o primeiro palácio, dedicado à memória do falecido guru fundador, tornei-me o pujari, o brâmane residente desse templo, responsável pelo culto e pela pregação. Era um verdadeiro palácio: possuía cinqüenta variedades diferentes de mármore, envoltas em molduras folheadas a ouro.

Casado e pai de um garotinho, eu jantava diariamente com a minha família, mas nunca dormia em casa. Por volta das dezenove horas, retornava ao palácio para servir de guia aos turistas, pois aproveitávamos a opulência do templo para atrair-lhes a atenção e iniciá-los na doutrina da reencarnação, no bhakti-yoga e no mantra *.

 

(*) O Bhakti-yoga é um método ascético hindu que tem por fim aumentar da devoção amorosa a Deus. Os grupos bhakti são monoteístas, reconhecendo Vishnu, Shiva ou Krishna como divindade suprema, e não fazem distinção de castas. Geralmente, esses grupos propõem aos seus fiéis um caminho de nove atividades para ajudá-los a atingir o amor puro; entre elas, encontram-se o canto, a pregação, a oração e as posições corporais. Os mantras são frases ou palavras que, repetidas continuamente, servem para ajudar o fiel a concentrar todo o seu entendimento num único propósito (N. do E.).

 

 

ESCAPAR AO CICLO DAS REENCARNAÇÕES

 

Os escritos hindus propunham um método que parecia ser capaz de elevar-me acima de todo o desejo sensual, de qualquer tentação, a fim de que eu pudesse finalmente escapar do ciclo de reencarnações, atingindo um amor puro a Deus.

Comer carne, peixe, ovos, tomar bebidas alcoólicas, café, chá, fumar, assistir à televisão, ouvir música profana e, principalmente, ter mais de uma relação sexual por mês com a esposa, tudo isso eram pecados para os devotos de Krishna. O dia começava às três da manhã com três horas de ofício religioso e, à noite, voltávamos ao templo para adorar os ídolos e para uma sessão de perguntas e respostas com o guru.

 

Ao longo de todos aqueles anos, eu sentia repugnância pelos cristãos, e adorava ridicularizá-los durante os passeios guiados. Jesus morrera pelos pecados? Eu replicava aos turistas que Jesus vivera para que eles parassem de cometê-los.

 

POR QUE VIVER?

 

Como fui parar lá? Eu era um adolescente tão apaixonado pela liberdade que não queria fumar, beber, usar drogas ou tomar café, tudo para não criar qualquer tipo de dependência. Uma bolsa de estudos permitiu-me estudar num colégio particular muito renomado de Montreal. Estava rodeado de alunos muito mais ricos do que eu, mas pude observar que não eram felizes. Além disso, uma experiência marcou-me especialmente: um professor de religião que tinha vivido na América do Sul escolheu alguns alunos para uma experiência de três dias num “Campo de Educação para o Desenvolvimento Internacional”. Objetivo: expor-nos dramaticamente às condições de vida do terceiro mundo. Voltei de lá marxista, e ainda mais enojado com um mundo em que todos ou são exploradores ou explorados.

 

Aos dezessete anos, decidi não completar os meus estudos e sair pelo mundo apenas com a minha mochila. Pedia carona e algumas vezes tomava trens de carga. Embora tivesse partido sem dinheiro, fazia questão de não mendigar: comia tão-somente o que me davam os motoristas. A minha vida transformou-se num lento suicídio, porque eu queria saber se era nas proximidades da morte que se encontrava um sentido para a vida.

Foram centenas as pessoas que me levaram nos seus carros. Eu as questionava à busca de respostas e jamais encontrei entre elas um cristão de verdade. Vivi dessa maneira por vários meses e percorri trinta mil quilômetros através do Canadá e dos Estados Unidos. Quase sempre dormia a céu aberto e o contacto com a natureza produziu em mim um maravilhamento diante da sua grandeza. Seria toda aquela beleza fruto unicamente de mutações aleatórias e da seleção natural? Em determinado momento, disse comigo: “Deus, se você existe, mostre-me, pois caso contrário não vejo nenhuma razão para continuar a viver”. Finalmente, depois de muito tempo viajando, depois de ter roçado a morte várias vezes, comecei a sentir-me protegido. Descobrira finalmente um sentido para a vida: buscar Deus e a sua Vontade.

 

Já levava um ano fora de casa quando decidi terminar a minha viagem em Berkeley, perto de São Francisco, na Califórnia. Duas vezes por semana, vendia o plasma do meu sangue. Dormia numa árvore situada no alto de uma colina que dominava a cidade e fingia ser aluno da Universidade a fim de poder tomar banho ali e usar a biblioteca. Lia a Bíblia, o Alcorão, a Bhagavad-gita, à procura de uma religião que pudesse ensinar-me a verdade sem erros.

Certa noite, estava dormindo na minha árvore quando fui acordado por alguém que me atirava pedras. Era um policial que me disse ser proibido dormir ali. No dia seguinte, bati à porta de uma pequena igreja em cuja fachada piscava um néon com a frase “Jesus saves” (“Jesus salva”). O pastor ofereceu-me um quarto e perguntou-me se eu queria conversar, mas eu estava cansado demais para isso.

Antes de dormir, quis ler a Bíblia, mas na gaveta do criado-mudo só encontrei revistas pornográficas. Naquela noite, tomei uma decisão: já era tempo de escolher uma religião e começar a praticá-la. Aquele pastor, que no dia seguinte me fez propostas de natureza sexual, fez crescer ainda mais a minha repugnância pelos cristãos, que se julgavam salvos e passavam a vida em frente à televisão, que bebiam e fumavam enquanto havia gente sem comer. Foi então que me fiz Hare Krishna.

 

 

ABERTURA AO DIÁLOGO

 

Quinze anos mais tarde, onde estava eu? O meu trabalho na construção dos templos deixava-me exultante e eu me orgulhava diante dos turistas por ter respostas para tudo. Contudo, durante a noite, quando me encontrava a sós no palácio, um mal-estar apoderava-se do meu espírito: eu não me tinha transformado num ser purificado como esperava. Era atormentado por uma questão: e se, mesmo depois de centenas de reencarnações, eu continuasse tão pecador como sempre?

 

A minha comunidade Krishna queria melhorar a sua imagem aos olhos do público. Passamos a levar comida às famílias pobres das cidades vizinhas e queríamos abrir-nos ao diálogo inter-religioso. Um casal de católicos veio então morar na comunidade. Tinham estado diversas vezes em Medjugorje *, e a mulher tivera um sonho no qual Maria lhe pedia que construísse, na nossa comunidade, uma capela dedicada a Ela.

 

(*) Medjugorje é uma pequena paróquia na cidade bósnia de Čitluk. Seis moradores dali (quatro mulheres e dois homens), segundo afirmam, vêm tendo visões freqüentes de Nossa Senhora desde 1981. O lugar tornou-se um foco de peregrinações e tem produzido frutos, como conversões, curas, aumento de piedade, difusão do culto mariano, etc. Por outro lado, há vários pontos duvidosos acerca da autenticidade das aparições: a plena ortodoxia das mensagens, a idoneidade dos videntes, a obediência de algumas pessoas associadas às aparições à legítima hierarquia, etc. O bispo local, a conferência episcopal iugoslava e posteriormente a bósnia, bem como a Santa Sé, têm-se manifestado com muita cautela, sem aceitar que o fenômeno seja de origem sobrenatural (N. do E.).

 

O casal pediu-me que os ajudasse nessa construção e eu cedi-lhes o meu braço direito, o meu melhor amigo. Para minha grande surpresa, passadas algumas semanas, vi o meu amigo, que era de uma família judia de origem russa, com um terço na mão. Disse-me que rezava os mistérios gozosos de manhã, os dolorosos ao meio-dia e os gloriosos à noite. Eu não conseguia entender como aquele brâmane erudito podia ter caído tão baixo! Seria que aqueles católicos lhe haviam feito uma lavagem cerebral?

Combinamos encontrar-nos no palácio depois das nove da noite para que ele me contasse como tinha chegado a esse estado. Assim que entrou, tranquei a porta, decidido a não o deixar sair de lá antes de fazê-lo voltar ao hinduísmo. Pediu-me que assistisse a um vídeo sobre as pretensas aparições em Medjugorje. Aceitei apenas com a intenção de mostrar-lhe que aquilo não passava de balela; contudo, fiquei fascinado com as palavras da Virgem. Todos os meus sistemas intelectuais de ataque e de defesa puseram-se de pé. Sentia-me atormentado, mas ao mesmo tempo queria ouvir o vídeo...

 

De repente, senti um calafrio: era como se alguma coisa descesse sobre mim ou brotasse do meu íntimo. Soube que Jesus é a Verdade e que Nossa Senhora me conduzia a Ele. Quando a fita acabou, estava boquiaberto. Pedi ao meu amigo que me deixasse só. Fui deitar-me imediatamente, dizendo: “OK, Maria, você realmente me impressionou, mas pouco importa o que senti no meu coração; ainda tenho um cérebro. É preciso que você me dê uma razão muito boa para satisfazer a minha inteligência. Você compreende? Se aceitar Jesus como meu Salvador, perderei a minha mulher e o meu filho e irei parar no olho da rua!...”

Foi assim que começou o meu caminho na fé, um caminho do qual jamais me arrependi.

 


 

Jean-François decidiu então saber mais sobre o catolicismo, que desconhecia embora tivesse sido batizado quando criança. Recorreu primeiro ao casal católico e depois a alguns livros. Ficou fascinado sobretudo com o fato de Jesus Cristo ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem e com a descoberta da misericórdia divina. Essas duas realidades, que lhe revelaram um Deus capaz de sofrer por amor dos pecadores, contrastavam enormemente com o que aprendera no movimento Hare Krishna, segundo o qual só os puros podiam aproximar-se da divindade. Jean-François acabou deixando a comunidade, sozinho e sem nenhum dinheiro, e voltou de bicicleta para Montreal, onde ainda vive. O seu filho juntou-se a ele mais tarde, depois de converter-se também ao catolicismo graças a umas aulas de catecismo que o pai lhe enviava sob a forma de apostilas. Pode-se ouvir o seu testemunho em inglês no site Triumph of Truth (http://www.triumphoftruth.com; é necessário possuir o Real Player, que pode ser baixado aqui).

 


 

Fonte: Revista Feu et lumière, n. 260, abril 2007.
Link: http://feuetlumiere.org/espnum/rub_temoignages/tem260.htm
Tradução: Quadrante

 

 


Arquivo edição 5

 

Da escravidão à santidade: Josefina Bakhita

 

Religiosa sudanesa da Congregação das Filhas da Caridade (Canossianas) 

Fonte:http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20001001_giuseppina-bakhita_po.html 

 

Irmã Josefina Bakhita nasceu no Sudão (África), em 1869 e morreu em Schio (Vicenza-Itália) em 1947.  

Flor africana, que conheceu a angústia do rapto e da escravidão, abriu-se admiravelmente à graça junto das Filhas de Santa Madalena de Canossa, na Itália.

 

bakhita2A irmã morena

Em Schio, onde viveu por muitos anos, todos ainda a chamam«a nossa Irmã Morena».

O processo para a causa de Canonização iniciou-se doze anos após a sua morte e no dia 1 de dezembro de 1978, a Igreja emanava o Decreto sobre a heroicidade das suas virtudes.

A Providência Divina que «cuida das flores do campo e dos pássaros do céu», guiou esta escrava sudanesa, através de inumeráveis e indizíveis sofrimentos, à liberdade humana e àquela da fé, até a consagração de toda a sua vida a Deus, para o advento do Reino.

 

Na escravidão

Bakhita não é o nome recebido de seus pais ao nascer. O susto provado no dia em que foi raptada, provocou-lhe alguns profundos lapsos de memória. A terrível experiência a fizera esquecer também o próprio nome.

Bakhita, que significa «afortunada», é o nome que lhe foi imposto por seus raptores.

Vendida e comprada várias vezes nos mercados de El Obeid e de Cartum, conheceu as humilhações, os sofrimentos físicos e morais da escravidão.

 

Rumo à liberdade

Na capital do Sudão, Bakhita foi, finalmente, comprada por um Cônsul italiano, o senhor Calixto Legnani. Pela primeira vez, desde o dia em que fora raptada, percebeu com agradável surpresa, que ninguém usava o chicote ao lhe dar ordens mas, ao contrário, era tratada com maneiras afáveis e cordiais. Na casa do Cônsul, Bakhita encontrou serenidade, carinho e momentos de alegria, ainda que sempre velados pela saudade de sua própria família, talvez perdida para sempre.

Situações políticas obrigaram o Cônsul a partir para a Itália. Bakhita pediu-lhe que a levasse consigo e foi atendida. Com eles partiu também um amigo do Cônsul, o senhor Augusto Michieli.

 

Na Itália

Chegados em Gênova, o Sr. Legnani, pressionado pelos pedidos da esposa do Sr. Michieli, concordou que Bakhita fosse morar com eles. Assim ela seguiu a nova família para a residência de Zeniago (Veneza) e, quando nasceu Mimina, a filhinha do casal, Bakhita se tornou para ela babá e amiga.

A compra e a administração de um grande hotel em Suakin, no Mar Vermelho, obrigaram a esposa do Sr. Michieli, dona Maria Turina, a transferir-se para lá, a fim de ajudar o marido no desempenho dos vários trabalhos. Entretanto, a conselho de seu administrador, Iluminado Checchini, a criança e Bakhita foram confiadas às Irmãs Canossianas do Instituto dos Catecúmenos de Veneza. E foi aqui que, a seu pedido, Bakhita, veio a conhecer aquele Deus que desde pequena ela «sentia no coração, sem saber quemEle era».

«Vendo o sol, a lua e as estrelas, dizia comigo mesma: Quem é o Patrão dessas coisas tão bonitas? E sentia uma vontade imensade vê-Lo, conhecê-Lo e prestar-lhe homenagem».

 

Filha de Deus

Depois de alguns meses de catecumenato, Bakhita recebeu os Sacramentos de Iniciação Cristã e o novo nome de Josefina. Era o dia 9 de janeiro de 1890. Naquele dia não sabia como exprimir a sua alegria. Os seus olhos grandes e expressivos brilhavam revelando uma intensa comoção. Desse dia em diante, era fácil vê-la beijar a pia batismal e dizer: «Aqui me tornei filha de Deus!».

Cada novo dia a tornava sempre mais consciente de como aquele Deus, que agora conhecia e amava, a havia conduzido a Si por caminhos misteriosos, segurando-a pela mão.

Quando dona Maria Turina retornou da África para buscar a filha e Bakhita, esta, com firme decisão e coragem fora do comum, manifestou a sua vontade de permanecer com as Irmãs Canossianas e servir aquele Deus que lhe havia dado tantas provas do seu amor.

A jovem africana, agora maior de idade, gozava de sua liberdade de ação que a lei italiana lhe assegurava.

 

Filha de Madalena

Bakhita continuou no Catecumenato onde sentiu com muita clareza o chamado para se tornar religiosa e doar-se totalmente ao Senhor, no Instituto de Santa Madalena de Canossa.

A 8 de dezembro de 1896, Josefina Bakhita se consagrava para sempre ao seu Deus, que ela chamava com carinho «el me Paron!».

Por mais de 50 anos, esta humilde Filha da Caridade, verdadeira testemunha do amor de Deus, dedicou-se às diversas ocupações na casa de Schio.

De fato, ela foi cozinheira, responsável do guarda-roupa, bordadeira, sacristã e porteira. Quando se dedicou a este último serviço, as suas mãos pousavam docemente sobre a cabecinha das crianças que, diariamente, freqüentavam as escolas do Instituto. A sua voz amável, que tinha a inflexão das nênias e das cantigas da sua terra, chegava prazerosa aos pequeninos, reconfortante aos pobres e doentes e encorajadoras a todos os que vinham bater à porta do Instituto.

 

Testemunha do Amor

A sua humildade, a sua simplicidade e o seu constante sorriso, conquistaram o coração de todos os habitantes de Schio. As Irmãs a estimavam pela sua inalterável afabilidade, pela fineza da sua bondade e pelo seu profundo desejo de tornar Jesus conhecido.

«Sede bons, amai a Deus, rezai por aqueles que não O conhecem. Se, soubésseis que grande graça é conhecer a Deus!».

Chegou a velhice, chegou a doença longa e dolorosa, mas a Irmã Bakhita continuou a oferecer o seu testemunho de fé, de bondade e de esperança cristã. A quem a visitava e lhe perguntava como se sentia, respondia sorridente: «Como o Patrão quer».

 

A última prova

Na agonia reviveu os terríveis anos de sua escravidão e vária vezes suplicava à enfermeira que a assistia: «Solta-me as correntes ... pesam muito!».

Foi Maria Santíssima que a livrou de todos os sofrimentos. Assuas últimas palavras foram: «Nossa Senhora! Nossa Senhora!», enquanto o seu último sorriso testemunhava o encontro com a Mãe de Jesus.

Irmã Bakhita faleceu no dia 8 de fevereiro de 1947, na Casa de Schio, rodeada pela comunidade em pranto e em oração. Uma multidão acorreu logo à casa do Instituto para ver pela última vez a sua «Santa Irmã Morena», e pedir-lhe a sua proteção lá do céu. Muitas são as graças alcançadas por sua intercessão.

 


 Arquivo edição 4

 

Nossa Senhora Aparecida

 

As primeiras décadas do século XVIII no Brasil não foram nada fáceis. O declínio do açúcar nordestino, a aparição de uma nova corrida aurífera no sudeste, especialmente em Minas Gerais, a concorrência de muitos "senhores" pelo monopólio da nova região do ouro, os conflitos entre negros e colonos portugueses, entre índios e os chamados "bandeirantes", bem como a grande distância do território nacional e as dificuldades nas comunicações, marcavam um panorama de tensão e de grande preocupação pelo futuro da nação, que ainda estava em formação.

E foi assim que em 1716, um novo governador da província de São Paulo e Minas de Ouro havia sido escolhido, D. Pedro de Almeida e Portugal, conhecido como o "Conde de Assumar". Vinha direto de Portugal com a difícil missão de apaziguar os conflitos na região mineira. Chega em São Paulo em 1717 e vai direto para Minas. Durante a sua viagem, chega no domingo 17 de outubro na vila de Guaratinguetá, após ter percorrido mais ou menos um terço do caminho, para descansar. A cidade recebe-o com grande festa. Passou na cidade 13 dias, sob os atenciosos cuidados do governador da Vila, o Capitão-mor Domingos Antunes Fialho.

Para a alimentação da grande comitiva que acompanhava ao Conde de Assumar, o Senado da Câmara mandou que alguns pescadores fossem conseguir peixes, já que a cidade estava rodeada pelo Rio Paraíba do Sul. E assim aconteceu que...

"Entre muitos, foram a pescar Domingos Martins Garcia, João Alves e Felipe Pedroso com suas canoas. E principiando a lançar as suas redes no Porto de José Corrêa Leite, continuaram até o Porto de Itaguassu, distância bastante, sem tirar peixe nossasenhoraaparecidaalgum. E lançando neste porto, João Alves a sua rede de rastro, tirou o corpo da Senhora, sem cabeça; lançando mais abaixo outra vez a rede tirou a cabeça da mesma Senhora, não se sabendo nunca quem ali a lançasse. Guardou o inventor esta imagem em um tal ou qual pano, e continuando a pescaria, não tendo até então tomado peixe algum, dali por diante foi tão copiosa a pescaria em poucos lanços, que receoso, e os companheiros, de naufragarem pelo muito peixe que tinham nas canoas, se retiraram a suas vivendas, admirados deste sucesso" .

Havia ocorrido um milagre! Inexplicável como pode ser que em três lançadas de rede ao rio, se retirasse, continuamente, um corpo, logo sua cabeça, e mais tarde uma incrível quantidade de peixes. Felipe Pedroso, profundamente católico e tocado pela experiência, viu e creu. Foi intercessão da Virgem Maria, Mãe de Deus! Levou, então, a pequena imagem para a sua própria casa e poucos dias depois começou a organizar orações, sobretudo a reza constante do terço. Novos milagres foram acontecendo e a piedade foi aumentado incrivelmente. Já em 1748, pelo testemunho de alguns padres jesuítas que aí foram visitar, "eram muitos os que aí se reuniam para pedir ajuda e proteção à Senhora que eles chamam, piedosamente, de a "Aparecida"".

A própria imagem de Nossa Senhora Aparecida resume em si, todas as qualidades de síntese cultural, de conciliação e da unidade da qual estamos falando. E sem dúvida, sua "aparição" foi uma clara resposta, desde a fé, a todo esse difícil contexto político-social que atravessava a Colônia no início do s. XVIII.

Olhemos para a imagem. Nela se encontram o português (a imagem é uma réplica da Padroeira de Portugal e do Brasil, Nossa Senhora da Conceição, que desde 1646 fazia parte da devoção de D. João IV e de toda as suas colônias); o brasileiro (a imagem foi feita, segundo estudos, com "terracota", barro paulista característico da região encontrada); o índio (a imagem foi encontrada no rio indígena "Para`iwa", passo entre Minas, Rio e São Paulo, hoje, Rio Paraíba do Sul); e o negro (a imagem possui uma cor castanho escuro, tendendo ao negro).

E assim se espalhou a devoção a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, hoje, Padroeira do Brasil, cujo Santuário, na cidade de Aparecida do Norte reúne milhares de fiéis, de distintos lugares e etnias, em um bela manifestação de nossas raízes culturais, de nossa "unidade na pluralidade" mantida e fortalecida pela fé. A História de Nossa Senhora Aparecida nos ajuda, portanto, a entender esse papel tão importante da fé católica na configuração de nossa identidade cultural. Somos um país com vocação católica!

Peçamos a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, a "mãe amável, a mãe querida" do nosso Brasil que interceda por cada um de nós e pelo nosso povo para que, seguindo os seus passos, possamos ir ao encontro daquele que nos espera de "braços abertos", o Cristo Redentor, o Filho de Maria.

 


 

Arquivo Ediçao 3

 

Jérome Lejeune: um cientista rumo aos altares

 

 A Santa Sé divulgou que deu início ao processo da causa de beatificação de Jerome Lejeune, pai da genética moderna e responsável pela descoberta da causa da síndrome de Down.

O anúncio foi divulgado pelo Arcebispo de Paris, D. André Vingt-Trois, que esperava a autorização do Vaticano. Foi nomeado o Padre Jean Charles Naud, prior da Abadia de St. Wandrille, postulador da causa de beatificação daquele que foi também o primeiro Presidente da Academia Pontifícia para a Vida.
Jerome Lejeune publicou a sua descoberta sobre a causa da síndrome de Down e do cromossoma 21 em 1959, quando tinha 33 anos. Três anos depois, em 1962, foi designado perito em genética humana na Organização Mundial da Saúde e em 1964, director do Centro Nacional de Investigações Científicas da França.
Posteriormente foi criado para ele, na Faculdade de Medicina de Sorbona, a primeira cadeira de Genética fundamental, facto que o tornou candidato principal, no seu ramo, ao Prémio Nobel.

Mas a distinção nunca aconteceu, por ser acusado de ser fundamentalista e de impor a fé católica no âmbito da ciência e por opor-se tenazmente ao crime do aborto e a conceitos ideológicos como o de pré-embrião.

O pai da genética moderna morreu em 3 de Abril de 1994. Nesse altura, João Paulo II destacou que “na sua condição de cientista e biólogo, Lejeune era uma apaixonado da vida porque chegou a ser o maior defensor da vida, especialmente da vida dos não-nascidos, tão ameaçada na sociedade contemporânea”.

 

Confira abaixo o texto de Evaristo Eduardo de Mirando sobre Lejeune.

 

Lejeune: A genética como arte de curar




Muitas pessoas conhecem o nome do Dr. Lejeune, o pesquisador francês que identificou a origem genética da chamada Síndrome de Down. Mas, no Brasil, pouco se sabe sobre sua vida, suas pesquisas e sua personalidade. O Dr. Lejeune foi uma pessoa extraordinária e um exemplo de servidor fiel. Este pequeno artigo reúne algumas informações sobre sua vida e seu exemplo.

O professor Jérôme Lejeune nasceu em 1926, na cidade de Montrouge, França. Cresceu no seio de uma família muito unida, o que lhe permitiu desenvolver suas aptidões físicas, intelectuais e espirituais. Muito reconhecido, ele manifestou uma constante veneração por seus pais, que permitiram a cada filho realizar seus talentos com toda liberdade. "Minha família foi a maior recompensa recebida em minha vida", dizia Lejeune.

Durante seus estudos, seu pai sempre o orientou, não no sentido de armazenar conhecimentos enciclopédicos, mas a desenvolver suas capacidades intelectuais pelo exercício das mesmas. Nessa perspectiva, sua formação humanística foi muito grande. Ele se consagrou particularmente aos estudos de latim, grego, religião, filosofia, literatura, matemática e geometria. Concluiu seus estudos secundários em 1946. Sua adolescência foi marcada pela guerra. Como a de todos de sua geração.

O Dr. Lejeune começou seus estudos de medicina, desejando ser um médico de zona rural. Isso determina, durante certo tempo, suas escolhas de estágios de formação. Mas, rapidamente, ele se interessou pelo enigma do mongolismo e manifestou sua vontade de trabalhar sobre os mecanismos e a caracterização dessa doença. Uma doença cujos segredos ele desejava penetrar, como explicou, em 1951, para um colega médico que cumpria o serviço militar com ele, o Dr. Lucien Israel, do Pelotão de Oficiais da Reserva para os Serviços de Saúde. Ao aprofundar seus estudos de genética, o Dr. Lejeune seguirá o objetivo de toda sua carreira: aliviar o sofrimento, tratando - e curando - na medida do possível, fiel ao juramento de Hipócrates.


LejeuneApresentamos aqui, um resumo das principais etapas de sua carreira como pesquisador:

Em 1952, ele decidiu se dedicar à pesquisa científica e começou sua carreira como estagiário no Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França, o CNRS. Progressivamente, ele galgou todos os cargos, até o de diretor de pesquisas.

Em 1953, ele descreveu as anomalias palmares nos portadores da síndrome de Down. Essas pesquisas acabaram por levá-lo a descrever a primeira doença genética conhecida.

Em 1958, como conta sua esposa, ao levar a família de férias para a Dinamarca, ele não parava de comentar: - Eu fiz uma descoberta! E é na Dinamarca que ele fará revelar as fotos de cromossomos, obtidas em seu laboratório na França. Entusiasmado, ele as publicou num jornal local, em agosto de 1958! Em setembro, na Universidade de S. Gill, de Montreal, Canadá, ele expõe sua hipótese do determinismo cromossômico da síndrome de Down. Em dezembro, ao estudar os cromossomos de três meninos "mongolóides", ele confirmou sua hipótese. Ainda em 1958, ele já foi chamado para ensinar genética humana, como professor convidado da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.

Em janeiro de 1959, ele publicou seus resultados na revista da Academia de Ciências da França, junto com dois colegas: Marthe Gauthier e Raymond Turpin. Pela primeira vez no mundo estabelecia-se um vínculo entre um estado de deficiência mental e uma aberração cromossômica.

Em 1960, todos os resultados desses trabalhos de pesquisa foram o objeto de seu doutorado (Doctorat es Sciences).

Em 1961, apareceu um famoso artigo, no The Lancet, assinado por 19 pesquisadores. Eles propuseram a substituição do termo mongolismo por trissomia 21. Uma reação dos autores anglo-saxãos insistirá na denominação síndrome de Down, em homenagem àquele que assimilou, em 1866, a distrofia congenital a uma tara racial! Lejeune não busca associar seu nome à descoberta. Ele mantém o termo trissomia 21, para colocar em evidência, que a doença é causada por um acidente genético, no qual os pais não têm nenhuma responsabilidade.

Em 1963, ele demonstra diante da Academia de Ciências da França, que a falta de um determinado segmento do genoma (monossomia) poderia determinar uma doença clinicamente identificável. Nisso, é reconhecido como um dos fundadores da citogenética humana.

Ele esperou até 1964 para que sua descoberta da trissomia 21 lhe abrisse as portas da Faculdade de Medicina de Paris, beneficiando-se do Código de Napoleão (algo muito francês!). O código abre a possibilidade da carreira universitária para quem faz avançar os conhecimentos de forma notável. Ele foi professor de genética humana na Faculdade de Medicina Necker e dirigiu pesquisas em citogenética e patologia cromossômica humana. Também ajudou na formação de centenas de pesquisadores, sendo mais de 200 estrangeiros, de mais de 30 países.

As pesquisas do professor Lejeune não se limitaram a trissomia 21. Ele descobriu, em 1964, que uma enfermidade conhecida como "Miado do Gato" resultava da falta de um segmento no cromossomo 5.

Em 1966, identificou a síndrome do cromossomo 18 q- e descobriu o fenótipo Dr, síndrome de malformação ligada ao cromossomo 13. O Dr. Lejeune e sua equipe identificaram, ainda, diversas outras trissomias (a do 9 em 1970 e a do 8 em 1971).

No início dos anos 70, a comparação sistemática das conseqüências respectivas dos excessos (trissomias) ou faltas (monossomias) de um segmento de genoma o levaram a propor a noção de tipo e contratipo. Ele emitiu a hipótese de que um cromossomo sobrenumerário deveria levar a um excesso das enzimas que ele controlava e vice versa.

Em 1974, essa hipótese foi verificada quando ele constatou um excesso de atividade da enzima superóxido-dismutase nos portadores da trissomia 21. O Dr. Lejeune e sua equipe exploraram uma série de correlações entre déficit de inteligência e atividade enzimática. Suas pesquisas abriram várias pistas terapêuticas, como a da regularização do metabolismo dos monocarbonos etc.

Esses resultados inspiraram e ainda inspiram uma série de terapias, no campo das multivitaminas e da medicina ortomolecular, já existentes e em desenvolvimento atualmente. Apesar de ser uma doença genética, o Professor Lejeune nunca desistiu da idéia de encontrar uma cura para a doença, uma forma de "desativar" ou "desligar"o cromossomo sobrenumerário. "Pouco importa que seja eu ou outro que descubra como curar os trissômicos. O importante é de encontrar a cura o mais rápido possível. (...) Colocar ao serviço dos pacientes os progressos técnicos de cada dia é certamente uma das tarefas mais difíceis da pesquisa médica, mas ela é ao mesmo tempo sua nobreza e sua única razão de ser", lembrava sempre o Dr. Lejeune.

Ele também pesquisou sobre o câncer, já que a leucemia aguda atinge vinte vezes mais as crianças portadoras da trissomia 21. Várias relações inéditas entre as células constitucionais e as neoplásicas foram identificadas pelo Dr. Lejeune. Nos últimos dias de sua vida, no leito de hospital, ele insistia em reunir e discutir com seus colegas alguns eixos de pesquisa sobre os mecanismos de aparecimento das células neoplásicas e sobre determinismos, que ligam a vulnerabilidade ao câncer ao funcionamento do sistema nervoso.
O professor Lejeune faleceu no sábado da Páscoa de 1994.

"Um único critério mede a qualidade de uma civilização: o respeito que ela prodiga aos mais fracos de seus membros. Uma sociedade que esquece disso está ameaçada de destruição. A civilização está, muito exatamente, no fornecer aos homens o que a natureza não lhes deu. Quando uma sociedade não admite os deserdados, ela dá as costas à civilização" (J. Lejeune).

Suas posições éticas e morais, em defesa da vida e dos indefesos, fizeram-no odiado pelos que pretendem mudar a sociedade atribuindo-se o direito de vida e de morte sobre seus semelhantes. Lejeune dizia "A história nos demonstra, que não são os que aceitam que se matem doentes e indefesos os que aportam as soluções para esses problemas."

O professor Lejeune obteve, entre várias honrarias e títulos, os de doutor Honoris Causa das universidade de Dusseldorf (Alemanha), Pamplona (Espanha), Buenos Aires (Argentina) e da Universidade Pontifícia do Chile. Ele era membro da Academia de Medicina da França, da Academia Real da Suécia, da Academia Pontifícia do Vaticano, da American Academy of Arts and Sciences, da Academia de Lincei (Roma) entre outras. Participou e presidiu várias comissões internacionais da ONU e OMS. Foi o primeiro presidente da Academia Pontifícia para a Vida.

Sua morte foi objeto de numerosas manifestações: uma longa carta do Papa João Paulo II à sua família, elogios em várias academias de ciências, discursos de autoridades políticas, científicas e culturais. Milhares de cartas chegaram do mundo inteiro. Uma frase apareceu, em comum, entre muitas cartas de pais: "Ele nos ensinou a amar nossa criança."


Evaristo Eduardo de Miranda: Doutor em ecologia, professor da USP, pesquisador do Núcleo de Monitoramento Ambiental da EMBRAPA, conselheiro da Fundação Síndrome de Down e autor dos livros "Água, Sopro e Luz - Alquimia do Batismo" e "Agora e na Hora - Ritos de passagem à Eternidade" (Ed. Loyola).

Fonte: http://www.geocities.com/Heartland/Forest/5876/ageneticalejeune.htm


Arquivo Edição 2

 

Entrevista Madre Teresa de Calcutá

 

"Fazemos esse trabalho por Jesus Cristo, porque o amamos. É tão simples"
Sem Fronteiras - Quantas são atualmente as Missionárias da Caridade?
Madre Teresa
- Temos 3.604 Irmãs professas e 411 noviças, em seis noviciados: Calcutá, Filipinas, Tanzânia, Polônia, Roma e Estados Unidos. As postulantes são 260. No total, somos 4.275 Missionárias da Caridade, distribuídas em 119 países. As nossas Irmãs pertencem a 79 nacionalidades. Contamos com 560 tabernáculos, ou casas.

Por que "tabernáculos"?

- Porque Jesus está presente nessas casas. São casas de Jesus.
A nossa congregação quer contribuir para que as pessoas sejam saciadas da sua sede de Jesus. Fazemos isso, tentando resgatar e santificar os mais pobres dos pobres. Como as outras congregações, fazemos os votos de castidade, pobreza e obediência. Recebemos a autorização especial de fazer um quarto voto: o de nos colocarmos a serviço dos mais pobres dos pobres.


Como a senhora vê o tema do celibato?

- O celibato não é para quem se sente chamado ao matrimônio. O sacramento do matrimônio é maravilhoso. Desde o momento em que um homem e uma mulher se amam verdadeiramente e rezam juntos, Deus transmite a eles o seu amor.
A vida familiar merece muita atenção, é um dom de Deus. Não obstante, nós religiosas renunciamos a esse dom. Consagramos a nossa vida a Deus na castidade e no amor, sem divisão. Nada nem ninguém nos poderá separar desse amor, como diz São Paulo.

A senhora costuma dizer que não há amor sem sofrimento...

- Sim, o verdadeiro amor faz sofrer. Cada vida, e cada vida familiar, deve ser vivida honestamente. Isso supõe muitos sacrifícios e muito amor. Porém, ao mesmo tempo, esses sofrimentos vêm sempre acompanhados de muita paz.

Quando a paz reina em um lar, ali se encontram também a alegria, a unidade e o amor. Como se pode levar uma vida familiar normal sem paz e sem unidade?
Nesse sentido, a oração de São Francisco é muito atual. Não vivemos nas mesmas circunstâncias, mas o que Francisco pedia responde perfeitamente às necessidades da nossa época. Em Calcutá, rezamos essa oração todos os dias, depois da comunhão. Penso em todos os homens e mulheres que necessitam de amor: "Senhor, fazei-nos dignos de ser instrumentos da verdadeira paz, que é a vossa paz".


A sua congregação abriu casas para pessoas com Aids em várias partes do mundo...
- Sim, entre outros lugares, nos Estados Unidos, na Itália, no Zaire e, evidentemente, na Índia. Até pouco tempo atrás, não era raro queMotherTeresa1990 pessoas se suicidassem quando ficavam sabendo que tinham o vírus da Aids. Hoje, nenhum enfermo acolhido em nossas casas morre no desespero e na amargura. Todos, inclusive os não-católicos, morrem na paz do Senhor. Isso não é maravilhoso?



As regras da sua congregação falam do trabalho em favor dos "mais pobres dos pobres, tanto no plano espiritual quanto no plano material". O que a senhora entende por "pobreza espiritual"? Alguns dizem que se ocupa apenas com gente que vive na rua...

- Os pobres espirituais são os que ainda não descobriram Jesus Cristo, ou que estão separados dele por causa do pecado. Os que vivem na rua também precisam ser ajudados nesse sentido.

Por outro lado, fico muito contente de ver que, em nosso trabalho, podemos contar também com a ajuda de gente acomodada, a quem oferecemos a oportunidade de fazer algo de bom para Deus. É desse modo que conseguimos abrir um centro onde acolhemos e assistimos a jovens que saem da prisão.

Essa gente nos oferece material e dinheiro. Nesses dias chegou uma carta dos Estados Unidos. Pela letra dava para ver que era de uma criança. Ela me dizia: "Madre Teresa, eu gosto muito de você". O envelope continha um cheque de 3 dólares. Para essa criança, tratava-se de um grande sacrifício.


Vocês também recebem ajuda de gente de outras religiões?

- Sim, de muçulmanos, hinduístas, budistas e outros. Alguns meses atrás, um grupo de budistas japoneses veio conversar comigo sobre espiritualidade. Eu disse a eles que jejuamos todas as primeiras sextas-feiras do mês e que o dinheiro economizado vai para os pobres. Quanto regressaram ao seu país, os monges pediram às famílias e comunidades budistas que fizessem o mesmo. O dinheiro que recolheram nos permitiu construir o primeiro andar do nosso centro "Shanti Dan" ("Dom de Paz") para as "jailgirls" (meninas da prisão).

Cento e dez dessas meninas já saíram da prisão. São jovens, quase sempre adolescentes. Muitas delas são deficientes psíquicas. Saem das favelas e, de repente, se vêem metidas na prostituição. A maior parte, assim que renuncia a esse tipo de vida, é denunciada à polícia pelos proxenetas. Acaba na prisão, onde vive em condições desumanas.


Madre Teresa, alguns a criticam, dizendo que só tem um objetivo: converter os não-cristãos...
- Ninguém pode forçar ou impor a conversão, que só acontece por graça de Deus. A melhor conversão é a que consiste em ajudar as pessoas a se amarem umas às outras. Nós, que somos pecadores, formos criados para sermos filhos de Deus, e temos que nos ajudar a chegarmos o mais perto possível dele. Todos somos chamados a amá-lo.


A senhora diz que as suas Irmãs não são assistentes sociais. Por quê?

- Somos contemplativas no coração do mundo, porque "rezamos" o nosso trabalho. Realizamos um trabalho social, certamente, mas somos mulheres consagradas a Deus no mundo de hoje. Entregamos a nossa vida a Jesus, com uma renúncia total e a serviço dos pobres, tal como Jesus nos deu a sua vida na eucaristia. O trabalho que fazemos é importante, mas não é tanto a pessoa que o faz que é importante. Fazemos esse trabalho por Jesus Cristo, porque o amamos. É tão simples.

Não temos condições de fazer tudo. Eu sempre rezo muito por todos aqueles que se preocupam com as necessidades e misérias dos povos.

Muitas personalidades e gente rica se associaram à nossa ação. Pessoalmente, não possuímos nada. Não ganhamos dinheiro. Vivemos da caridade e para a caridade.


E da Providência...

- Isso mesmo. Normalmente, sempre temos que enfrentar necessidades imprevistas. Em nossa casa "Sishu Bevan", temos mais de duzentos bebês que necessitam de um tipo especial de leite. Um dia, as minhas Irmãs vieram me procurar para dizer: "Madre, tem que fazer alguma coisa, porque não vemos nenhuma saída". No mesmo dia, um hindu rico veio me ver e me disse: "Madre Teresa, esta manhã, uma voz me disse que eu tinha que fazer alguma coisa pelos pobres", e me deu o que necessitávamos. Deus é infinitamente bom. Ele sempre se preocupa conosco.


Por que tantas jovens entram para a sua congregação?

- Eu creio que elas apreciam, sobretudo, a nossa vida de oração. Rezamos quatro horas por dia. Elas também conhecem e vêem o que fazemos pelos pobres. Não se trata de trabalhos importantes e impressionantes. O que fazemos é muito discreto, mas nós o fazemos pelos mais pequenos.


A senhora é uma pessoa muito popular. Nunca se cansa de tanta gente, fotografias...?
- Considero isso um sacrifício, e também uma bênção para a sociedade. Eu e Deus fizemos um contrato: para cada foto que tiram de mim, Ele liberta uma alma do Purgatório... (risos)... Eu creio que, nesse ritmo, em breve, o Purgatório estará vazio...
Viajar pelo mundo cercada de tanta publicidade é cansativo e duro. Porém, eu utilizo tudo o que se me apresenta para a glória de Deus e o serviço aos mais pobres. É preciso que alguém pague esse preço.


Que mensagem gostaria ainda de nos deixar?

- Amem-se uns aos outros, como Jesus ama a cada um de vocês. Não tenho nada que acrescentar à mensagem que Jesus nos transmitiu. Para poder amar, é preciso ter um coração puro e é preciso rezar. O fruto da oração é o aprofundamento da fé. O fruto da fé é o amor. E o fruto do amor é o serviço ao próximo. Isso nos conduz à paz. - "UMBRALES"


Fonte: Revista Sem Fronteiras Nº 247 - Dezembro 96 - pág. 05 - http://ospiti.peacelink.it/zumbi/news/semfro/sf247p05.html

Ilustrações: Madre Teresa, em 1990, com o Papa João Paulo II.