A seção trará sempre perguntas que nos intrigam e a resposta da Igreja Católica. Abordaremos temas que não preocupam apenas o nosso tempo, mas a todas as épocas.
Belém, a cidade Natal de Cristo
do livro A Vida de Cristo, de J. Perez de Urbel
Se Nazaré era uma aldeia desconhecida dos autores da antiga literatura hebraica, Belém, pelo contrário, tinha uma história brilhante. Quando os israelitas assentaram arraiais na Terra Santa, o nome cananeu de Beth-Lahaum, “casa do deus Lahamu”, foi substituído pelo de Beth-Lehem, “casa do pão”. Também se lhe chamou Efratá, apelido de uma das prncipais famílias que nela se fixaram e se tornou famosa graças ao ramo de Jessé, pai de David. Era uma cidade pequena, e como tal a considerava o profeta Miquéias no século VIII, mas as caravanas que passavam do Egito para Jerusalém davam-lhe certa vida. Um tal Camaam, filho de um contemporâneo de David, construíra ali uma pousada que, no tempo de Jeremias e talvez no tempo de Jesus, continuava a chamar-se a hospedaria, Khan ou Geruth de Camaam.
Jerusalém e Belém distam uma da outra apenas duas horas, mas fazem parte de regiões geograficamente distintas. Ao deixar o planalto que as separa, a paisagem modifica-se bruscamente; é outro o ambiente, outro o clima, outro o curso das águas. É o vale que se estende em melodiosa policromia até à meseta situada sobre o Jordão; campos de trabalho, áridas planuras, terraplenos onde crescem oliveiras centenárias, depressões de uma beleza deslumbrante, defendidas do vento pelas montanhas do Oeste, onde os pastores têm os abrigos e, ao centro, uma feraz terra de semeadura, que deu o nome à histórica povoação de Bethehem, quer dizer, terra de pão.
Com a alma sacudida pela emoção e pela nostalgia, os dois esposos de Nazaré atravessaram aqueles lugares, onde cada arroio, cada pedra lhes trazia à memória algum acontecimento da história do povo de Deus, intimamente relacionado com a história da sua família: o campo eu outrora pertencera ao domínio de Booz; os restolhos onde podiam adivinhar-se as pegadas de Ruth, a ceifeira; o bosque no interior do qual David se encontrara com o leão. Subiram a colina branca e suave que levava à s primeiras casas e, no momento que agonizava a tarde, detiveram-se diante do Khan, talvez a velha construção de Camaam, restaurada através dos séculos, edifício rodeado de pórticos, com um grande pátio central, onde se amontoavam as cavalgaduras. Toda a gente gritava, corria ligeira dum lado para outro, cumprimentava-se em alta voz, cantava, brincava, gesticulava. Alguns maldiziam os caprichos do César e barafustavam contra aquela disposição que lhes impunha todas as espécies de privações, incômodos, despesas e exacções: a aspereza dos caminhos, a falta de comodidade das pousadas, o trato desdenhoso dos empregados, a preocupação de conseguir alojamento em terras onde talvez tivessem tido um ascendente ilustre, mas onde agora eram inteiramente desconhecidos.
À procura de uma pousada
José estava neste caso. Abriu caminho entre a multidão, prevendo já uma recepção desagradável. O que mais lhe pesava talvez não fosse não encontrar casa para passar a noite, mas o receio de não conseguir um canto onde estivessem sós. Lucas diz-nos que José levava consigo Maria, “sua esposa, que estava grávida”. Na realidade, ela não tinha obrigação de ir, uma vez que não era abrangida pela lei; mas era impossível deixá-la só naquele estado, e até pode ser que, dadas as circunstâncias prodigiosas da concepção, o casal tivesse resolvido estabelecer-se no lugar de origem da linhagem de David já que, segundo o anjo Gabriel, Deus daria ao fruto que esperavam o trono de seu pai David. Ora bem: aquele filho que Maria trazia nas entranhas e que de uma forma tão estranha fora concebido, havia também de nascer de uma maneira maravilhosa, e era doloroso pensar que não haviam de subtrair o mistério aos olhares de gente curiosa. É isto que se depreende da expressão de Lucas. Não diz simplesmente que não havia lugar na pousada, mas que não havia lugar para eles, alusão manifesta às exigências especiais provocadas pelo parto iminente de Maria. Os receio de José converteram-se em realidade; várias vezes lhe disseram e repisaram “que não havia lugar para eles na pousada” – um lugar recolhido, decoroso, solitário. Insistiu, suplicou, mas tudo foi inútil.
Arquivo Edição 7
do livro A Vida de Cristo, de J. Perez de Urbel
Depois da apresentação no templo, a Sagrada Família voltou a Belém, talvez com a intenção de se estabelecer definitivamente na cidade dos antepassados, como nos deixa entrever o fato de que o primeiro pensamento de José, no regresso do Egito, foi dirigir-se para lá, tendo desistido disso com receio da perseguição de Arquelau (Mat. II, 22). Mas nesta altura se dá um acontecimento que transforma todos os seus planos. Tendo nascido Jesus em Belém de Judá, no reinado de Herodes, uns magos vindos do Oriente apareceram em Jerusalém e perguntaram: onde está o Rei dos Judeus, que acaba de nascer? Porque vimos no Oriente a sua estrela e viemos adorá-lo. É Mateus que fala. Se fosse Lucas, o autor deste episódio, poderia dizer-se que o introduzia para demonstrar a verdade do vaticínio de Simeão acerca da revelação às nações; mas é Mateus que conduz pela mão ao berço do recém-nascido estas ilustres personagens, que vêm em nome dos aborrecidos goin.
Aquele céu oriental, de uma azul profundo, aveludado, quase negro, onde as estrelas brilham como pupilas deslumbrantes, onde a via-láctea mais parece uma nuvem luminosa, de uma magnificência indescritível, sempre teve sábios e investigadores infatigáveis, homens a asserção é de Fílon preocupados com a justiça e com a virtude, que exploravam com avidez os mistérios celestes e se esforçavam por descobrir os segredos da natureza para chegarem ao conhecimento da verdade. O povo venerava-os e servia-se deles para entrar em comunicação com a divindade, e na Pérsia, mesmo depois de implantado o culto de Zoroastro, constituíam o núcleo mais importante da casta sacerdotal. Não eram reis, mas eram os conselheiros e os senhores dos reis, os que transmitiam aos reis a vontade de Deus, os que interpretavam os sonhos, sacrificavam as vítimas, ofereciam libações, benziam os campos, purificavam os homens e liam o porvir nas combinações estelares. Eis tudo o que a palavra mogh significa na língua dos persas.
Sua origem
Vinham do Oriente, palavra que, geograficamente, designa toda a região que se estende do outro lado do Jordão: em primeiro lugar a Mesopotâmia, terra do Tigre e do Eufrates, onde ficava a Babilônia, e, finalmente, a Pérsia. E à Pérsia precisamente nos conduz o nome de magos que, etimologicamente, é de origem persa e está, além disso, relacionado com a pessoa e a doutrina de Zoroastro. Os magos foram os seus primeiros discípulos, os que recolheram as suas doutrinas reformadoras dos povos do Irã, e os que guardavam a revelação sagrada do Avesta, os que aconselhavam os reis e desfrutavam de um poder e influência tais, que às vezes chegavam a subir ao trono. Dado o caráter dos presentes, seríamos levados a pensar que vinham da Arábia; tudo o mais nos sugere, porém, como lugar de procedência, o país em que reinavam os descendentes de Nabucodonosor e de Ciro, o país das planícies do Eufrates ou dos montes de Ecbatana, o ambiente daqueles povos cujos sacerdotes examinavam os astros dos seus altos zikuraths, o gorro comprido na cabeça, a túnica cingida aos rins, o manto a flutuar nas costas e as pernas metidas em calças estreitas. Era assim que as pinturas das catacumbas representavam estes generosos peregrinos.
Os antepassados tinham vivido em contato com os profetas de Israel, tinham conhecido os livros da revelação judaica e quem sabe... talvez nos seus cenáculos se repetisse com veneração a profecia de Balsaão, mago ilustre dos dias mosaicos: Eis o que vos anuncia o homem que ouviu a palavra de Deus, o homem que viu visões de Deus: vejo-o ao longe, na distância, descubro-o nos horizontes do porvir. De Jacó nascerá uma estrela e em Israel levantar-se-á um cetro. Na cidade da Babilônia, centro dos impérios da Mesopotâmia, vivera um dos maiores videntes, Daniel, aquele que, junto às águas do Eufrates, numa visão memorável, adivinhara os anos e os meses que faltavam para o advento do Messias. E os vaticínios messiânicos poderiam recordar aos mago a sua doutrina sobre o grande auxiliador, o suashyant e a Astratereta, a verdade encarnada, que viria assegurar o triunfo final do bem sobre o mal e devolver ao gênero humano a sua primitiva felicidade. A profecia estava prestes a cumprir-se. Assim o asseguravam os sutis calculadores e decifradores dos signos astrológicos e dos horóscopos sagrados. Por todo o Oriente afirma o historiador dos Césares corria o rumor de que um grande rei se ia erguer na Judéia para conquistar o mundo.
Arquivo Edição 6
O Acordo entre Brasil e a Santa Sé
Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora(MG)
Fonte: http://presbiteros.com.br/Artigos/150.htm
Na última semana, alegrou o coração dos católicos o Acordo assinado entre o Brasil e a Santa Sé. Foi no dia 13 de novembro, quinta-feira, após a visita do Sr. Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, à Sua Santidade Bento XVI. Embora o acontecimento não repercutisse como deveria - ao contrário, tratado pela imprensa como mera formalidade diplomática -, o Acordo é de grande importância para a Igreja no Brasil e para todos os católicos. Não se trata de uma concessão de benesses à Igreja, não é a restauração do famigerado Padroado, mas uma disposição de condições que assegurem o trabalho pastoral em nossas comunidades, salvaguardando o bem das almas.
Desde a promulgação da Constituição Republicana no Brasil, em 1890, a atuação da Igreja Católica no Brasil encontrou algumas dificuldades. Se por um lado livrara-se da ingerência às vezes desmedida e por interesses escusos do governo, por outro sofria com a indiferença de um Estado laico, tocado pela doutrina positivista. Mas, graças à formação de nosso povo, cujo solo pátrio foi batizado, tão logo descoberto em 1500, pela celebração do Santo Sacrifício, à sombra da Santa Cruz, passaram-se 118 anos, desde então, e o Brasil continua tão católico, quanto sempre o foi. Venceu à frivolidade daquele pensamento absurdo que regera os primórdios da República a religiosidade dos brasileiros.
O caso do Brasil é pouco comum. O Estado laico não encetou nenhuma perseguição; alguns poucos que se atreveram bateram-se em retirada diante da cruz redentora ou do sussurrar de Ave-Marias contra seu intento malévolo. Assim, pois, continuaram nossos padres a realizar seus trabalhos pastorais em suas igrejas, na assistência aos nosocômios, aos presídios, a grupos de estudantes, ao operariado; talvez tenham até se animado mais, impelidos pelo ardor missionário nestas terras continentais, por onde semeiam, até hoje, a Fé Católica.
O Acordo assinado com a Santa Sé consolida, portanto, a atuação da Igreja no Brasil, autenticando o seu Estatuto Jurídico. Com isso, além da liberdade para a realização dos trabalhos pastorais, dentre os vinte artigos do documento, reconhece os títulos de estudo, autoriza o ensino religioso nas escolas públicas, valida o casamento religioso e as sentenças eclesiásticas acerca do matrimônio, além de definir claramente questões fiscais. A vinda de missionários estrangeiros para o Brasil será, doravante, facilitada, com a possibilidade de os Senhores Bispos solicitarem visto de permanência para esses religiosos que tanto auxiliam, principalmente as vastas dioceses carentes de um número maior de padres. Abre-se, ainda, a possibilidade de convênios entre a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e órgãos do Estado, em diversos segmentos, resguardados os interesses da Igreja.
Este passo importante na História da Igreja no Brasil devemo-lo aos Senhores Bispos que se empenharam para que se chegasse a esse termo. Nossa gratidão eleva-se a Deus na intenção do Excelentíssimo Senhor Núncio Apostólico, Dom Lourenzo Baldisseri, e ao Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, pela sua aquiescência, como reconhecimento da religiosidade católica de nossa terra.
Agora, todos os católicos devem se unir e pedir ao Congresso Nacional a ratificação desse Acordo. Que os Senhores Senadores e Deputados Federais, sem nenhuma paixão pessoal, mas conscientes, reconheçam esse direito da Igreja e aprovem o Acordo, dando-lhe força de Lei para sua plena execução. Como disse o Santo Padre Bento XVI em sua visita ao Brasil, em 2007, este país “nasceu cristão e possui um elevado número de católicos, mas principalmente porque é uma nação rica em potencialidades, com uma presença eclesial que é motivo de alegria e esperança para toda a Igreja”. Daí o direito que temos a esse Acordo.
Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora(MG)
Arquivo Edição 5
O nazismo e a Igreja Católica
Autor: d. Estevão Bettencourt
(Fonte: Pergunte e Responderemos 456 - pp. 208-218)
Ainda Pio XII e sua época:
Em síntese: O presente artigo refere tópicos da perseguição movida pelo nacional-socialismo alemão contra a Igreja Católica entre 1933 (ano da ascensão de Hitler ao poder) e 1939 (ano em que começou a segunda guerra mundial e se acalmou um tanto a perseguição). Os episódios narrados mostram o requinte de um plano que, na sua fúria exterminadora, associou entre si cristãos e judeus por causa das raízes semitas do Cristianismo. O Governo alemão era infenso à Cúria Romana e ao Papa Pio XI, cujo Secretário de Estado era o Cardeal Eugenio Pacelli; quando este foi à França em 1937, a imprensa alemã o tachou de amigo dos judeus e dos comunistas - o que bem mostra quão inverossímil é dizer que Pacelli (Papa Pio XII) era "O Papa de Hitler" ou amigo do nacional-socialismo.
* * *
O debate sobre Pio XII e sua atitude frente ao nacional-socialismo de Adolf Hitler continua, embora já tenha sido repetidamente demonstrado que Pio XII não pactuou com o nazismo, mas, ao contrário, opôs-se-lhe e defendeu os judeus contra a sanha anti-semita. Uma nova abordagem da questão pode ser proposta, ao considerarmos a perseguição movida por Hitler e seus seguidores contra a Igreja Católica: ver-se-á que Pio XII soube reagir, direta ou indiretamente, às investidas do nacional-socialismo, ao qual ele não podia dar o seu aval. - Eis por que, nas páginas subseqüentes, apresentaremos alguns tópicos da ação antieclesial do hitlerismo muito significativos para se entender o contexto em que Pio XII viveu.[1]
1. 1933: o ano da ascensão de Hitler
Aos 30 de janeiro de 1933, o Presidente Hindenburg, da Alemanha, nomeou Chanceler do Reich Adolf Hitler, chefe do Partido Nacional-Socialista. Ao subir ao poder, os hitleristas ainda eram minoria dentro de uma frágil coalisão no país, mas concebiam o firme propósito de galgar sempre mais os degraus da administração pública alemã. Dizia Hitler: "Estou decidido a continuar a luta tão energicamente dentro do governo como eu lutei fora do governo".
O chanceler e seu gabinete, tendo à frente Hermann Goering, viam um conjunto de milhões de adversários a isolar e destruir para chegar ao total domínio da Alemanha. Eram eles: os judeus, os comunistas, os social-democratas com seu forte eleitorado (o Partido do Centro Católico) e a Igreja Católica. Todos eram inimigos, que era preciso eliminar tão rapidamente quanto as circunstâncias o permitissem.
Embora Hitler sentisse que havia particular urgência em combater judeus e comunistas e neutralizar os Partidos de oposição, ele entrevia na Igreja Católica um opositor que lhe parecia muito pernicioso e que era necessário controlar imediatamente e até derrotar radicalmente a fim de poder estabelecer o seu Reich (reino) de mil anos.
Para dissipar a influência da Igreja Católica, o chanceler se voltou para Alfred Rosenberg, filósofo e nazista convicto, que desprezava o Cristianismo. No seu livro "O Mito do Século XX", Rosenberg elaborou uma "teoria científica" que justificava o racismo. Para ele, o valor humano supremo era o da raça: cada raça possuiria a sua alma coletiva própria, "o místico poder do sangue e da terra". Cada raça teria também seu impulso religioso (no caso dos germano ários, tal seria o culto pagão de Wotan, rei dos deuses). Segundo Rosenberg, o Cristianismo era o produto distorcido de tribos semitas que haviam conseguido enganar os ários, fazendo-os renunciar às suas "verdades pagãs". A Igreja Católica, pioneira nesse embuste espiritual, era então visada como alvo de veemente ataque, como sendo ela a promotora de "falsificações" prodigiosas conscientes e inconscientes.
Durante toda a década de 1930 Rosenberg lançou escárnio contra a Igreja. O clero, a hierarquia e o Vaticano foram injuriados como envenenadores do sangue alemão, mercadores de morticínio e causa de caos da raça, obscurantistas ou "homens das trevas", feiticeiros de Roma e, com referência às raízes semitas do Cristianismo, advogados de pervertido orientalismo. Jesus Cristo foi tido como inconsciente instrumento nas mãos de conspiradores judeus internacionais que estão em atividade desde o século I da nossa era. Ou, diziam outros, Jesus em absoluto não foi judeu, mas um ário prototípico, filho de um soldado romano lotado na Palestina. Durante toda a sua carreira até a forca em Nürenberg, Rosenberg propagou suas idéias mediante panfletos, discursos e seminários de treinamento para dirigentes nazistas, aos quais apregoava a "perfeita raça nórdica".
Sem demora começaram as escaramuças entre nazistas e católicos. Em fevereiro de 1933 houve em Berlim um conflito entre comunistas e nazistas. Conflito no qual morreu um policial católico, o sargento Zuritz. Os seus funerais realizaram-se em sua cidade natal na Silésia, ocasião em que o sacerdote celebrante deplorou os numerosos e violentos homicídios dos últimos tempos e citou como algo de terrível a máxima formulada por Hitler: "Se eles nos desobedecerem, as suas cabeças rolarão". Esta era uma clara alusão a um discurso de Hitler. Os muitos policiais de choque presentes ao ato começaram então a tossir para abafar as palavras do padre. Destemido, este exclamou: "Vocês todos podem tossir como lhes agrada, mas a mim não farão tossir para que eu não diga a verdade".
No mesmo mês de fevereiro, o Ministro Goering proibiu a circulação de todos os penódicos católicos de Colônia. Levantaram-se protestos, aos quais ele respondeu negando que isso fosse parte de um plano dirigido contra a Igreja Católica; dizia ele que "o governo estaria lavrando a sua própria ruína, caso seguisse tal política". A proibição foi posteriormente revogada, mas deixou a população atemorizada por toda a região da Renânia: de resto, o fato aconteceu pouco antes que a imprensa católica fosse encampada na Alemanha pelos nazistas.
Ainda aos 22 de fevereiro de 1933 outro notável incidente ocorreu. As tropas de SA nazistas desbarataram encontros de sindicatos cristãos com o Partido do Centro Católico. Um eminente político católico, Adam Stegerwald, foi atacado em público numa plataforma de Krefeld e vários sacerdotes foram feridos.
Uma breve pausa nos conflitos verificou-se quando Hitler se dispôs a fortalecer a unidade nacional para poder enfrentar inimigos de dentro e de fora do país. Dirigiu então um apelo à Igreja Católica para que aceitasse entrar em negociação. Ao mesmo tempo circulavam fortes rumores que ameaçavam a Igreja Católica, caso não fosse logo concluído um acordo. Isto provocou debates. Finalmente o Papa Pio XI e seu Secretário de Estado, o Cardeal Eugenio Pacelli, apesar de muitas apreensões, averiguaram que não podiam recusar conversações com um governo legitimamente instaurado. Se recusassem, Hitler faria público o seu aparente propósito de paz e acusaria os católicos de o solapar. O Cardeal Pacelli argumentava que um acordo lavrado por escrito seria melhor base de coexistência tranqüila do que nenhum pacto jurídico. Os luteranos também aceitaram negociar com o governo. Naquele momento da história, fim de junho de 1933, já havia campos de concentração e ocorriam encarceramentos em massa, atingindo centenas de membros do Partido Católico. - O representante do governo nas negociações, Ministro Franz von Papen, católico, embora estivesse ciente dos problemas registrados atrás, declarou aos jornalistas que as relações entre o Vaticano e o Reich eram tão amigas que em oito dias apenas a Concordata fora acertada até em seus mínimos pormenores. Por conseguinte, em julho de 1933 foi assinado um Acordo que assegurava que certas atividades da Igreja Católica no plano educacional, no da juventude e no de Encontros e Congressos ficavam garantidas por lei do Reich. Em troca, devia cessar o apoio da Igreja ao Partido Católico e aos Partidos do povo bávaro. De resto, já antes de ser assinada a Concordata, o próprio Partido do Centro Católico, pressionado pelo nazismo, havia decidido dissolver-se, fato este que Pacelli lamentou, porque o deixara sem respaldo durante as negociações.
Pacelli afirmava que de dois males era preciso escolher o menor. Se não fora a Concordata, os católicos teriam sido deixados à mercê das tropas de choque nazistas (SA, SS) e da Gestapo. A Concordata poderia servir-lhes de amparo para protestarem contra as injustiças. Em julho de 1933, observava Pacelli frente a um oficial da Embaixada Britânica que, embora os ataques aos católicos fossem perdurar, "dificilmente os nazistas violariam todos os artigos da Concordata ao mesmo tempo". Na verdade, apesar de pretensas garantias, foram constantemente desrespeitados os termos do Acordo.
Em dezembro de 1933, um Estatuto de Editores obrigava todos os editores a tornar-se membros da Câmara Literária do Reich e a obedecer a todas as diretrizes que dela emanassem. Tal lei proibia dar notícias minuciosas de peregrinações, imprimir calendários litúrgicos e até anunciar Encontros de agremiações católicas. Ao definir o que considerava propaganda contra o Estado, o Estatuto desferia um golpe mortal na ampla e próspera imprensa católica.
A censura enrijeceu. Cada tipografia ficou sujeita ao capricho das autoridades, e um véu cobriu parcialmente o que ocorria dentro da própria Alemanha.
O Vaticano, desejoso de saber exatamente o que acontecia, encontrou quem o ajudasse. Uma numerosa turma de testemunhas desconhecidas acompanhava os agentes do Estado que estivessem trabalhando às ocultas, passava para fora do país relatórios e documentos secretos. Um dos heróis dessa intelligentzia católica foi o Dr. Joseph Mueller, mensageiro-chefe. Era este um jurista antinazista de Munique, conhecido por ser pessoa calma e de confiança. Oficial da Abwehr (Defesa Militar), podia locomover-se livremente entre Munique, Berlim e Roma. Na sua sacola de trabalho, isenta de alfândega e dos olhos da Gestapo, ele transportava maços de documentos que proporcionavam minúcias da campanha contra os católicos da Alemanha e da Áustria. Quando a Rádio Vaticana levava ao ar extratos dos relatos trazidos por Mueller, a Gestapo reagia com fúria e pôs-se a procurar acirradamente a respectiva fonte.
2. De 1934 a 1939
A documentação fornecida por Mueller permitiu averiguar crescente progresso das medidas anticatólicas entre 1933 e 1939. O Estado queria forçar os jovens católicos a entrar na Juventude Hitlerista; as escolas e os sindicatos católicos foram desmantelados, o clero condenado à perseguição e ao cárcere. Entre 1935 e 1938 os padres e os Religiosos foram humilhados cinicamente por motivo de "divisas ilegais" e "imoralidade". Com efeito, as leis do Estado regulamentavam a importação e exportação de dinheiro; mandar qualquer quantia para fora do país podia ser considerado "alta traição" e "sabotagem". Por alegação de infrações às leis vigentes, a campanha foi dura e resultou em encarceramentos vários e pesadas multas. Tal foi o caso do Pe. Agner, redentorista, que foi preso numa cidade e falsamente acusado.
A confiscação de contas bancárias era procedimento habitual, adotado pela polícia, que era muitas vezes brutal e agressiva. Em maio de 1935, no convento de S. Carlos Borromeu em Trebnitz (Saxônia), duas Religiosas morreram do choque quando a Superiora e outras Irmãs foram presas sob a acusação de que exportavam dinheiro para um convento na Tchecoslováquia. As Irmãs responderam que era absurdo pensar que elas possuíssem elevadas quantias, já que gastavam toda a sua vida em obras de caridade. Em 22/07/1935 declarou um advogado em Münster: "Era notório que até juizes e procuradores do Estado caíam em erro no tocante à legislação econômico-financeira".
Os processos por imoralidade procuravam destruir a reputação dos Religiosos católicos. Sacerdotes, monges e freiras foram acusados de "estilo de vida pervertido e imoral". A polícia secreta lhes preparou numerosas armadilhas: assim em maio de 1936 alguns padres foram chamados para atender a pessoas doentes em quartos de hotel. Eram aguardados nesses quartos por fotógrafos. Quando o padre entrava no quarto, a pessoa "doente" revelava ser uma prostituta ali colocada pela Gestapo. As fotografias assim tiradas eram levadas aos tribunais e ao público como irrefutáveis provas de corrupção moral.
Em 1936 um famoso processo atingiu os franciscanos da cidade de Waldreitbach (Renânia). Foi amplamente divulgado, a ponto que as famílias foram admoestadas por panfletos "santamente redigidos" a que não matriculassem seus filhos em educandários católicos. As próprias crianças foram estimuladas a ler os sinistros relatos. Em algumas cidades, as bancas de jornais foram especialmente arrumadas, de modo que em prateleiras a pouca altura as crianças pudessem ler estórias pornográficas acompanhadas de caricaturas nas páginas de Der Sturm (o jornal controlado por Julius Streicher, notoriamente anti-semita e anticatólico).
Os testemunhos das crianças eram levados aos tribunais pela polícia secreta de tal forma que não era permitido a alguém contradizer-lhes. Registraram-se ameaças, subornos, brutais interrogatórios noturnos, colapsos nervosos...
Nos Estados Unidos comícios e marchas de protesto começaram a ter lugar logo que lá chegaram as notícias dos infamantes processos. Em junho de 1936, 48 clérigos assinaram um documento que dizia: "Levantamos solene protesto contra a brutalidade dos ataques movidos contra o clero católico pelo governo alemão, que o acusa de imoralidade... O bom nome do sacerdócio católico é assim difamado, na expectativa de que se possa chegar ao extermínio das crenças judaica e cristã por parte do Estado totalitário". Os rabinos Samuel Abraham, de Boston, Philip Bernstein, de Rochester, e Philip Bookstaber, de Harrisburg, dezoito outros rabinos e vinte e um pastores protestantes assinaram tal protesto.
Voltando à Alemanha, observa-se que tais vozes ficaram sem resposta. Nos anos subseqüentes continuaram os ataques aos clérigos nas ruas, nas casas paroquiais e nos postos de fronteira. O culto divino nas igrejas podia ser interrompido, as procissões dissipadas, enquanto os fiéis católicos eram assaltados nas ruas.
Na Páscoa de 1935, peregrinos alemães que voltavam de Roma após visitar o Papa Pio XI, foram punidos na fronteira por agentes da Gestapo e da SS; receberam a ordem de deixar o trem em que viajavam e de ficar esperando; isto durou sete horas debaixo de copiosa chuva; enquanto a sua bagagem era toda minuciosamente inspecionada; foi-lhes confiscado tudo o que fosse sinal de alguma organização ou associação: bandeiras, estandartes, livros, barracas, até facas e garfos... Os peregrinos foram insultados furiosamente: "Assim são os papistas, o povo que apunhalou a Alemanha pelas costas em 1918! É preciso que eles sejam espancados e enviados para um campo de concentração... A melhor coisa seria degolá-los!". Diante dos protestos dos injuriados a polícia local apenas respondeu que estavam procurando uniformes ilegais.
No dia das eleições para o Reichstag em 1938, sacerdotes e Bispos foram atacados depois que a votação se encerrou. Em Fellbach, perto de Stuttgart, o Pe. Sturm, pároco, foi cercado por uma turma de 25 SS e SA (guardas nazistas), que lhe perguntaram em quem ele votara. Após ter saqueado a casa paroquial, obrigaram-no a passar entre duas fileiras de homens munidos de açoites, que cuspiram nele, zombando: "Este é o traidor, Pe. Sturm!". Depois de duas horas de abuso, foi levado ao chefe, que lhe deu uma lição acerca da doutrina de Hitler e lhe manifestou como ele (chefe) concebia os deveres de um pároco na nova Alemanha. A meia-noite, o Pe. Sturm foi posto em liberdade.
Embora os SS e a Juventude Hitlerista tivessem sido instruídos para não fazer mártires, era muito freqüente encontrar sacerdotes ameaçados. Muitos foram tratados com aspereza, sendo que um, atirado janela abaixo, teve as duas pernas quebradas. O Cardeal Faulhaber, de Munique, foi alvo de um tiro; o Cardeal lnnitzer teve sua residência saqueada em Viena no mês de abril de 1938. Neste mesmo mês deu-se um incidente notável, quando o Bispo Mons. Sproll, de Rottenburg, foi maltratado. Posteriormente ele recebeu uma carta anônima de um agente SA, que foi obrigado a tomar parte na agressão e que dizia: "Sempre fui ufano do meu país, mas nesse sábado eu me senti, pela primeira vez, envergonhado de ser um alemão".
Nessa mesma década de 1930, canções, filmes, discursos de membros do Partido, cartazes e peças de teatro satirizavam o clero. O produtor Anderl Kern redigiu a peça anticlerical intitulada "O Último Camponês", que circulou por toda a Alemanha, provocando sérios debates. Foram então apresentados ao público um pároco com um filho ilegítimo, um olho no sexo oposto e dinheiro fácil; um jovem seminarista volta para a casa dos pais, anunciando que perdeu a vocação; uma senhora mãe tenta matar uma jovem empregada doméstica com o rosário numa mão e o punhal na outra. No fim da peça aparece o ex-seminarista como "o autêntico herói alemão", tendo renunciado ao sacerdócio e prometido ao pai uma numerosa família "para a segurança futura da raça ariana".
A estratégia nazista consistia, essencialmente, em destruir o Catolicismo, eliminando todas as organizações patrocinadas pela Igreja desde as escolas infantis até os sindicatos. Em 1939, as escolas e os sindicatos católicos estavam praticamente extintos. Em troca havia as escolas nacional-socialistas, a Frente de Trabalho Nazista e a Juventude Hitlerista com seu ramo feminino, que era a Liga das Moças Alemãs.
Em 1937 os pais de família eram obrigados a escolher a escola de seus filhos perante duas testemunhas, geralmente homens da tropa de choque rigorosamente uniformizados; essas testemunhas os advertiam a respeito de perda de emprego e outras sanções. As próprias crianças nas escolas católicas sofriam represálias; não havia para elas prêmios pelos estudos primários, pois estes só podiam ser concedidos pelas escolas oficiais; aos pais que optassem por uma escola católica, era dito que seus filhos teriam que ir freqüentá-la nos subúrbios, a algumas milhas de distância. Em Speyer, cidade da Renânia, um operário narrou ao seu Bispo pormenores de como sua opção de escola foi obtida: "Disseram-me que fosse à Secretaria da paróquia; lá chegando, declarei que escolhia a escola católica, e preparava-me para ir embora, quando um agente nazista me segurou pelas costas e escreveu um ofício à minha firma de trabalho declarando que, por causa da minha opção, eu merecia ser demitido. Então disse-me um policial que, se eu não mudasse de alvitre, eu jamais poderia conseguir emprego".
Em 1936, na Baviera, 600 Religiosas dedicadas ao magistério foram afastadas do cargo. Em conseqüência deste e de outros casos semelhantes, muitas Religiosas se voltaram para empregos profanos nas fábricas, a fim de sobreviver. Em Baden, no verão de 1938 havia 41 Religiosas trabalhando numa fábrica de téxteis após ter deixado o magistério. O governo proclamava que todas as Religiosas que deixassem o convento, seriam imediatamente empregadas em instituições estatais. Na Renânia, em abril de 1939, 330 educandários católicos foram fechados por decreto do governo no chamado "Dia Negro para a Renânia Católica". As associações de jovens católicos foram declaradas "não alemãs", embora contassem centenas de milhares de membros. Os professores foram advertidos no sentido de que, como funcionários do Estado, tinham a obrigação de estimular seus alunos a entrar na Juventude Hitlerista ou na Liga das Moças Alemãs; a jovem que não se filiasse à Liga, era ameaçada de não encontrar rapaz para se casar quando terminasse seus estudos: caso viesse a se casar, o seu marido perderia o emprego logo que descobrissem que a esposa não pertencera à Liga das Moças Alemãs. Muitos trabalhadores católicos foram ameaçados de demissão, caso não pudessem provar que seus filhos se haviam alistado nas associações hitleristas de jovens. Muitas escolas de Artes e Ofícios anunciavam que só aceitariam como aprendiz quem estivesse filiado ao Partido. Os ferroviários alemães, num total de centenas de milhares de pessoas, publicaram semelhantes normas.
A censura imposta à imprensa e ao rádio fez que a Igreja se tornasse o único lugar em que o cidadão católico podia ouvir uma voz de protesto. Era extremamente perigoso, para os clérigos, exprimir-se contra o governo, embora alguns o fizessem energicamente, correndo os riscos respectivos, como o Pe. Rupert Mayer, de Munique. Os padres, aliás, estavam conscientes de que na igreja, disseminados entre os fiéis, havia agentes hitleristas clandestinos à escuta de seus sermões. Nem os Bispos eram poupados: tenham-se em vista o Bispo Clemens von Galen, de Münster, o Cardeal-arcebispo Faulhaber, de Munique, o Cardeal Bertram, de Breslau, o Cardeal Shulter, de Colônia.
Os sermões do Cardeal Faulhaber, de todos o mais famoso, proferidos na igreja de São Miguel durante o Advento, despertaram interesse nacional e internacional. Tornaram-se tão expressivos que milhares de pessoas os acompanhavam fora da igreja, nas ruas. No primeiro desses sermões, proferido em dezembro de 1933, Faulhaber defendeu o Cristianismo proclamando as suas raízes, ou seja, o judaísmo; enfatizou que o Cristianismo não admitia discriminação por causa da raça, e perguntou se os racistas ainda tinham fé. No mês seguinte algumas balas lançadas contra as janelas do seu escritório quebraram-lhe os vidros. Em março de 1934 o livro de seus sermões publicado com o título "Judaísmo, Cristianismo e Germanismo" foi retirado do comércio por causa de suas "caluniosas afirmações concernentes ao Estado". Apesar disto, o Cardeal Faulhaber continuou a denunciar a política nazista referente às escolas católicas, às associações de jovens, às eleições controladas, à esterilização de adultos, aos ataques contra o Papa e às tentativas de substituir o Cristianismo por aquilo que ele chamava "uma falsa religião". Faulhaber desempenhou importante papel na redação da encíclica antinazista Mit brennender Sorge (Com ardente Preocupação) publicada em março de 1937; este documento denunciava ataques contra a fé, a violação de quase todos os artigos da Concordata assim como os itens da ideologia nacional-socialista. A encíclica foi interditada pela Gestapo, mas foi secretamente policopiada e enviada para toda a Alemanha; a rede católica de comunicações clandestinas encarregou-se de a fazer chegar a todas as paróquias da Alemanha; centenas de agentes se empenharam, para tanto utilizando carros, bicicletas, motocicletas..., que transportavam até mesmo cópias feitas à mão.
A reação à encíclica não se fez esperar. O governo alemão enviou um protesto a Roma, que foi energicamente rejeitado pelo Cardeal Pacelli, Secretário de Estado e futuro Papa Pio XII. Uma ordem de Hitler e Goebbels mandou furiosamente que fossem acusadas publicamente dezenas de clérigos por delitos de imoralidade e calúnias contra o Estado. A Gestapo e os agentes SS puseram-se a procurar as oficinas que haviam reproduzido a encíclica; as tipografias suspeitas foram confiscadas e seus proprietários desalojados. Numa paróquia da diocese de Oldenburg, sete moças foram presas dentro da igreja quando confeccionavam cópias do texto após a Liturgia do domingo de Ramos.
3. O ano de 1939
A morte de Pio XI em fevereiro de 1939 e a eleição de seu sucessor, o Cardeal Pacelli, suscitaram o escárnio do periódico Das Schwarze Korps (O Corpo Negro), órgáo do SS[2] e porta-voz do Ministro Himmler. Referia-se a Pio XI como sendo "o Rabino-chefe dos cristãos, patrão da firma Judah-Roma". O Cardeal Pacelli já fora considerado pelo jornal como um aliado dos judeus e dos comunistas numa série de caricaturas e artigos publicados por ocasião de sua visita à França em 1937; ver ilustração à p. 218 [abaixo].
A política nazista podia variar segundo as circunstâncias históricas, tentando novas estratégias ou suprimindo táticas pouco profícuas. A perseguição podia tornar-se dissimulada ou mesmo sustada quando convinha. Por exemplo, em agosto de 1937, por ocasião dos Jogos Olímpicos em Berlim, o governo deu ordens de suspender qualquer atividade hostil aos judeus, aos católicos e aos protestantes; deviam ser subtraídos aos olhares dos jornalistas estrangeiros todos os espetáculos agressivos à religião. Todavia, logo que partiram os estrangeiros, a estrutura persecutória voltou a funcionar.
Quando irrompeu a segunda guerra mundial em setembro de 1939, Hitler preferiu deixar de lado o seu propósito de total destruição do Cristianismo para melhor desenvolver a ação bélica. Contudo houve no Partido quem julgasse ser um erro a suspensão da luta contra a Igreja (Kirchenkampf). Martin Bormann em 1941 fez ver a Himmler, chefe dos agentes SS, que "a influência da Igreja Católica deveria ser inteiramente sufocada". No tocante, porém, à perseguição movida contra os judeus, houve quase unanimidade na cúpula do nacional-socialismo em favor da continuação: a guerra dava a Hitler a oportunidade de novas investidas contra os israelitas para assim "purificar a Europa" pela eliminação dos não ários. Por quase toda a Europa os judeus foram maltratados e assassinados, ao passo que os eslavos foram escravizados ou mortos. A extensão do poder nazista para dentro da URSS dilatou enormemente o seu campo de ação exterminatória. A respeito da posição do Papa Pio XII frente ao Holocausto judaico, muito se tem escrito; está comprovado que se empenhou por salvar a vida de quantos judeus lhe foi dado atingir; só não se pronunciou em alta voz contra o anti-semitismo para evitar mais veementes represálias da parte do nacional-sociajismo. Cf. PR 446, 1999, pp. 317-331.
Embora o alcance da perseguição contra os cristãos tenha sido menor do que o da luta contra os judeus (com exceção talvez do que aconteceu na Polônia), as duas moções persecutórias manifestam a monstruosidade do sistema nazista.
Baldur von Schirach, chefe da Juventude Hitlerista, nas assembléias de seus colegas, gostava de lhes dizer, à guisa de chavão: "Somos jovens que crêem em Deus, porque servimos à Lei Divina, que se chama Alemanha". - É preciso não esquecer que essa blasfema concepção de Lei Divina, por dez mil caminhos tortos, levou à guerra, ao saque, a sofrimentos inauditos e, por fim, à destruição do ser humano.
Em Apêndice veja-se como o nacional-socialismo considerava o Cardeal Pacelli.
[IMAGEM PR456-1.GIF]
Segundo a propaganda nazista, Pio XII foi sempre um adversário do nacional-socialismo e um amigo dos judeus. Essa caricatura apareceu no jornal Das Schwarze Korps dos SS, quando em 1937 o Cardeal Pacelli visitou a França. No alto da figura o título reza: "A viagem do Cardeal à França". Na parede há um mural que diz; "Cozinha Venenosa da Frente Popular", referência ao Partido Comunista Francês. O rótulo da botija diz: "Horríveis Mentiras", enquanto a mulher judia comunista tem nas mãos um exemplar do jornal comunista L'Humanité com a manchete: "Perseguição dos cristãos na Alemanha". Diz o Cardeal Pacelli: "Sem dúvida, ela não é bonita, mas cozinha bem". Note-se que o Cardeal foi reproduzido com traços típicos de um judeu (da propaganda nazista) para combinar com as feições da mulher judia e comunista.
-----
Notas:
[1] O conteúdo deste artigo é retirado dos escritos do Prof. Karol Josef Gajewski, de Sandbach (Inglaterra), especialista em História da Europa. Os resultados de seus estudos foram publicados pela revista norte-americana Inside the Vatícan, novembro 1999, pp. 50-54.
[2] SS = Staatsicherheit (Segurança do Estado)
Quinto mandamento: não matar
Imagem: Caim e Abel, de Ticiano. Data de composição: 1570-1576
466. Porque respeitar a vida humana?
Porque é sagrada. Desde o seu início ela supõe a acção criadora de Deus e mantém-se para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim. A ninguém é lícito destruir directamente um ser humano inocente, pois é um acto gravemente contrário à dignidade da pessoa e à santidade do Criador. «Não causarás a morte do inocente e do justo» (Ex 23, 7).
470. Que proíbe o quinto mandamento?
O quinto mandamento proíbe como gravemente contrários à lei moral:
O homicídio directo e voluntário e a cooperação nele;
O aborto directo, querido como fim ou como meio, e também a cooperação nele, crime que leva consigo a pena de excomunhão, porque o ser humano, desde a sua concepção, deve ser, em modo absoluto, respeitado e protegido totalmente;
A eutanásia directa, que consiste em pôr fim à vida de pessoas com deficiências, doentes ou moribundas, mediante um acto ou omissão duma acção devida;
O suicídio e a cooperação voluntária nele, enquanto ofensa grave ao justo amor de Deus, de si e do próximo: a responsabilidade pode ser ainda agravada por causa do escândalo ou atenuada por especiais perturbações psíquicas ou temores graves.
Cuidados com o corpo e direito à vida
471. O que é consentido, medicamente, quando a morte é tida como iminente?
Os cuidados habitualmente devidos a uma pessoa doente não podem ser legitimamente interrompidos. São legítimos o uso de analgésicos, que não têm como fim a morte, e também a renúncia ao «excesso terapêutico», isto é, à utilização de tratamentos médicos desproporcionados e sem esperança razoável de êxito positivo.
472. Porque é que a sociedade deve proteger o embrião?
O direito inalienável à vida de cada ser humano, desde a sua concepção, é um elemento constitutivo da sociedade civil e da sua legislação. Quando o Estado não coloca a sua força ao serviço dos direitos de todos e em particular dos mais fracos, e entre eles dos concebidos ainda não nascidos, passam a ser minados os próprios fundamentos do Estado de direito.
473. Como se evita o escândalo?
O escândalo, que consiste em levar alguém a fazer o mal, evita-se respeitando a alma e o corpo da pessoa. Se alguém induz deliberadamente outro a pecar gravemente, comete uma culpa grave.
474. Que deveres temos em relação ao corpo?
O dever dum razoável cuidado da saúde física, da nossa e da dos outros, evitando todavia o culto do corpo e toda a espécie de excessos. Evitar o uso de estupefacientes, com gravíssimos danos para a saúde e a vida humana e também o abuso dos alimentos, do álcool, do tabaco e dos remédios.
475. Quando são moralmente legítimas as experiências científicas, médicas ou psicológicas, sobre pessoas ou grupos humanos?
São moralmente legítimas se estão ao serviço do bem integral da pessoa e da sociedade e não trazem riscos desproporcionados à vida e à integridade física e psíquica dos indivíduos, que devem ser oportunamente esclarecidos e dar o seu consentimento.
476. São consentidos a transplantação e doação de órgãos, antes e depois da morte?
A transplantação de órgãos é moralmente aceitável com o consentimento do doador e sem riscos excessivos para ele. Para o acto nobre da doação de órgãos depois da morte, deve acertar-se plenamente a morte real do doador.
477. Quais as práticas contra o respeito à integridade corpórea da pessoa humana?
São: os raptos e sequestros de pessoas, o terrorismo, a tortura, as violências, a esterilização directa. As amputações e as mutilações duma pessoa só são moralmente consentidas para indispensáveis fins terapêuticos da mesma.
Cuidados com os doentes terminais
478. Que cuidado ter com os moribundos?
Os moribundos têm direito a viver com dignidade os últimos momentos da sua vida terrena, sobretudo com a ajuda da oração e dos sacramentos que preparam para o encontro com o Deus vivo.
479. Como tratar os corpos dos defuntos?
Os corpos dos defuntos devem ser tratados com respeito e caridade. A sua cremação é permitida, se não puser em causa a fé na ressurreição dos corpos.
Paz e Guerra Justa
480. Que pede o Senhor a cada um em ordem à paz?
O Senhor, que proclama «bem-aventurados os obreiros da paz» (Mt 5, 9), pede a paz do coração e denuncia a imoralidade da ira, que é desejo de vingança pelo mal recebido, e do ódio, que leva a desejar o mal ao próximo. Estas atitudes, se voluntárias e consentidas em matéria de grande importância, são pecados graves contra a caridade.
481. O que é a paz no mundo?
A paz no mundo, a qual é exigida para o respeito e desenvolvimento da vida humana, não é a simples ausência de guerra ou equilíbrio entre as forças em contraste, mas é «a tranquilidade da ordem» (S. Agostinho), «fruto da justiça» (Is 32, 17) e efeito da caridade. A paz terrena é imagem e fruto da paz de Cristo.
482. O que exige a paz no mundo?
Exige a distribuição equitativa e a tutela dos bens das pessoas, a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito da dignidade das pessoas e dos povos, a assídua prática da justiça e da fraternidade.
483. Quando é moralmente consentido o uso da força militar?
O uso da força militar é moralmente justificado pela presença contemporânea das seguintes condições: certeza de um dano permanente e grave; ineficácia doutras alternativas pacíficas; fundadas possibilidades de êxito; ausência de males piores, considerado o poder actual dos meios de destruição.
484. A quem compete a avaliação rigorosa dessas condições, em caso de guerra?
Compete ao juízo prudente dos governantes, aos quais compete também o direito de impor aos cidadãos a obrigação da defesa nacional, salvo o direito pessoal à objecção de consciência, a realizar-se com outra forma de serviço à comunidade humana.
485. O que exige a lei moral, em caso de guerra?
A lei moral permanece sempre válida, mesmo em caso de guerra. Devem tratar-se com humanidade os não combatentes, os soldados feridos e os prisioneiros. As acções deliberadamente contrárias ao direito dos povos e as disposições que as impõem são crimes que a obediência cega não pode desculpar. Devem-se condenar as destruições em massa, bem como o extermínio de um povo ou duma minoria étnica, que são pecados gravíssimos e obrigam moralmente a resistir às ordens de quem os ordena.
486. O que se deve fazer para evitar a guerra?
Devemos fazer tudo o que é razoavelmente possível para evitar de qualquer modo a guerra, devido aos males e injustiças que ela provoca. É necessário, em especial, evitar a acumulação e comércio de armas não devidamente regulamentadas pelos poderes legítimos; as injustiças sobretudo económicas e sociais; as discriminações étnicas e religiosas; a inveja, a desconfiança, o orgulho e o espírito de vingança. Tudo quanto se fizer para eliminar estas e outras desordens ajudará a construir a paz e a evitar a guerra.
Arquivo edição 3
O sacramento do matrimônio
337. Qual é o desígnio de Deus acerca do homem e da mulher?
Deus, que é amor e criou o homem por amor, chamou-o a amar. Criando o homem e a mulher, chamou-os, no Matrimônio, a uma íntima comunhão de vida e de amor entre eles, «de modo que já não são dois, mas uma só carne» (Mt 19,6). Abençoando-os, Deus disse-lhes: «sede fecundos e multiplicai-vos» (Gn 1,28).
338. Para que fins instituiu Deus o Matrimônio?
A união matrimonial do homem e da mulher, fundada e dotada de leis próprias pelo Criador, está por sua natureza ordenada à comunhão e ao bem dos cônjuges e à geração e bem dos filhos. Segundo o desígnio originário de Deus, a união matrimonial é indissolúvel, como afirma Jesus Cristo: «O que Deus uniu não o separe o homem» (Mc 10,9).
339. Como é que o pecado ameaça o Matrimônio?
Por causa do primeiro pecado, que provocou também a ruptura da comunhão do homem e da mulher, dada pelo Criador, a união matrimonial é muitas vezes ameaçada pela discórdia e pela infidelidade. Todavia Deus, na sua infinita misericórdia, dá ao homem e à mulher a sua graça para que possam realizar a união das suas vidas segundo o desígnio originário de Deus.
340. O que é que o Antigo Testamento ensina sobre o Matrimônio?
Deus, sobretudo através da pedagogia da Lei e dos profetas, ajuda o seu povo a amadurecer progressivamente a consciência da unicidade e da indissolubilidade do Matrimônio. A aliança nupcial de Deus com Israel prepara e prefigura a Aliança nova realizada pelo Filho de Deus com a sua esposa, a Igreja.
341. Qual a novidade dada por Cristo ao Matrimônio?
Jesus Cristo não só restabelece a ordem inicial querida por Deus, mas dá a graça para viver o Matrimônio na nova dignidade de sacramento, que é o sinal do seu amor esponsal pela Igreja: «Vós maridos amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja» (Ef 5,25).
342. O Matrimônio é uma obrigação para todos?
O Matrimônio não é uma obrigação para todos. Deus chama alguns homens e mulheres a seguir o Senhor Jesus na vida da virgindade ou do celibato pelo Reino dos céus, renunciando ao grande bem do Matrimônio para se preocuparem com as coisas do Senhor e para procurar agradar-Lhe, tornando-se assim sinal do absoluto primado do amor de Cristo e da ardente esperança da sua vinda gloriosa.
343. Como se celebra o sacramento do Matrimônio?
Uma vez que o Matrimônio coloca os cônjuges num estado público de vida na Igreja, a sua celebração litúrgica é pública, na presença do sacerdote (ou da testemunha qualificada da Igreja) e das outras testemunhas.
344. O que é o consentimento matrimonial?
O consentimento matrimonial é a vontade, expressa por um homem e por uma mulher, de se entregarem mutua e definitivamente, com o fim de viver uma aliança de amor fiel e fecundo. Dado que o consentimento faz o Matrimônio, ele é indispensável e insubstituível. Para que o Matrimônio seja válido, o consentimento deve ter como objeto o verdadeiro Matrimônio e ser um ato humano, consciente e livre, não determinado pela violência ou por constrições.
345. Que se requer quando um dos esposos não é católico?
Para serem lícitos, os matrimônios mistos (entre católico e batizado não católico) requerem a permissão da autoridade eclesiástica. Aqueles com disparidade de culto (entre católico e não batizado) para serem válidos precisam duma dispensa. Em todo o caso, é essencial que os cônjuges não excluam a aceitação dos fins e das propriedades essenciais do Matrimônio e que o cônjuge católico confirme o empenho, conhecido também do outro cônjuge, de conservar a fé e de assegurar o Batismo e a educação católica dos filhos.
346. Quais são os efeitos do sacramento do Matrimônio?
O sacramento do Matrimônio gera entre os cônjuges um vínculo perpétuo e exclusivo. O próprio Deus sela o consentimento dos esposos. Portanto o Matrimônio concluído e consumado entre batizados não pode ser nunca dissolvido. Este sacramento confere também aos esposos a graça necessária para alcançar a santidade na vida conjugal e para o acolhimento responsável dos filhos e a sua educação.
347. Quais são os pecados gravemente contrários ao sacramento do Matrimônio?
São: o adultério; a poligamia, porque em contradição com a igual dignidade do homem e da mulher e com a unicidade e exclusividade do amor conjugal; a rejeição da fecundidade, que priva a vida conjugal do dom dos filhos; e o divórcio, que se opõe à indissolubilidade.
348. Quando é que a Igreja admite a separação física dos esposos?
A Igreja admite a separação física dos esposos quando, por motivos graves, a sua coabitação se tornou praticamente impossível, embora se deseje uma sua reconciliação. Mas eles, enquanto vive o cônjuge, não estão livres para contrair uma nova união, a menos que o Matrimônio seja nulo e como tal seja declarado pela autoridade eclesiástica.
349. Qual é a atitude da Igreja para com os divorciados recasados?
Fiel ao Senhor, a Igreja não pode reconhecer como Matrimônio a união dos divorciados recasados civilmente. «Quem repudia a própria mulher e casa com outra comete adultério contra ela; se a mulher repudia o marido e casa com outro, comete adultério» (Mc 10, 11-12). Para com eles, a Igreja desenvolve uma atenta solicitude, convidando-os a uma vida de fé, à oração, às obras de caridade e à educação cristã dos filhos. Mas eles não podem receber a absolvição sacramental nem abeirar-se da comunhão eucarística, nem exercer certas responsabilidades eclesiais enquanto perdurar esta situação, que objetivamente contrasta com a lei de Deus.
350. Porque é que a família cristã é chamada Igreja doméstica?
Porque a família manifesta e realiza a natureza de comunhão e familiar da Igreja como família de Deus. Cada membro, a seu modo, exerce o sacerdócio batismal, contribuindo para fazer da família uma comunidade de graça e de oração, escola das virtudes humanas e cristãs, lugar do primeiro anúncio da fé aos filhos.
Arquivo edição 2
As riquezas da Igreja
Por Lothar Zenetti*
“A Igreja e todas as suas posses”
Na Idade Média, entusiasmados pelos grandes empreendimentos, fazem-se à Igreja grandes doações: terras, bosques, campos, fundações pecuniárias para a manutenção de paróquias, escolas e hospitais para os pobres e para as obras culturais. Assim surgiu, sob o influxo da Igreja, uma economia florescente e admirável que durou séculos, e se desenvolveu também o sentido da beneficência popular, que o próprio Lutero elogiou. No século passado, a Igreja foi despojada da maior parte dos seus bens. Na Alemanha, pelo decreto de 1803, a Igreja ficou quase sem bens, servindo as suas riquezas para compensar os príncipes da margem esquerda do Reno, cujos domínios caíram em mãos francesas. Só o estado prussiano se enriqueceu então à custa da Igreja mais de cem milhões de táleros (moeda alemã antiga). A Igreja ficou economicamente à beira da ruína, obrigando-se os príncipes a subsidiar as necessidades do ministério pastoral. Se hoje o Estado, que lucrou milhões com os bens eclesiásticos, concede direitos fiscais e alguns subsídios, não faz mais do que cumprir um dever de justiça.
Em Portugal, em 1834, com Joaquim António de Aguiar e, depois, com a proclamação da República, em 1910, deu-se fato semelhante (nota da tradução portuguesa).
“Mas e o enorme lote de ações?”
Está bem, mas não possui o Vaticano imensos bens? Não se fala do gigantesco lote de ações de 12 milhões de dólares?
Sabe-se que o Vaticano, à morte de Bento XV (1922) estava endividado. No Tratado de Latrão, celebrado em 1929, o Estado italiano pagou ao Vaticano como indenização do despojo dos Estados Pontifícios a soma de 1,75 milhões de liras. Uma parte foi utilizada na construção, pois desde de 1870 não se tinha levantado nenhum edifício no Vaticano; construíram-se o palácio do Governador para assuntos administrativos, a nova Pinacoteca e outros edifícios menores.
Dados atuais, segundo a agência de notícias Zenit (9 de julho de 2008): “A Santa Sé encerrou o balanço econômico de 2007 com um déficit de 9 milhões de euros, cerca de 14 milhões de dólares, revela um comunicado difundido pelo Conselho dos Cardeais para o Estudo dos Problemas Organizativos e Econômicos da Santa Sé, que se reuniu no Vaticano entre 3 e 4 de julho, sob a presidência do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado.
No balanço, declara a nota vaticana, ‘aparecem entradas de 236.737.207 euros e saídas de 245.805.167. O resultado líquido é, portanto, um déficit de 9.067.960 euros depois de que nos últimos três balanços (2004, 2005 e 2006) se registraram resultados positivos em um total de 15.206.587 euros’.
O balanço foi apresentado aos purpurados pelo arcebispo Velasio De Paolis, C.S., a quem Bento XVI nomeou em abril passado como presidente da Prefeitura dos Assuntos Econômicos da Santa Sé.
E a ostentação e a pompa?
“O Vaticano”, diz-se, “dispõe de milhares de suntuosas salas! Há onze mil quartos só para o Papa!”
O Vaticano é composto por uma série de edifícios, que servem em parte a administração de uma Igreja universal com 700 milhões de fiéis, em parte para a habitação do pessoal e da guarda, e em parte para a recepção dos peregrinos e para as conferências. Alguns edifícios, que são seculares, albergam além disso grandes museus públicos com obras antigas e modernas e a Biblioteca Vaticana. Nesta magnificência, mais representativa que real, o Papa ocupa três divisões – sala de estudo, sala de trabalho e quarto de dormir). Vive, como se sabe, com toda a simplicidade.
O testamento de São Pio X († 1914) contém a seguinte cláusula: “Nasci pobre, vivi pobre e quero morrer pobre.” Nenhum dos que falam dessa “boa vida” quereria certamente se submeter à ordem do dia do Papa, com o horário de trabalho, as responsabilidades e os deveres cerimoniais.
“Mas para que o Papa necessita de soldados?”
O Papa não tem um exército mas guardas que velam pela ordem e prestam serviços de polícia no Vaticano (são milhares de peregrinos!). Mias da metade são voluntários, que nas ocasiões especiais vêm de Roma, onde exercem a sua profissão habitual, e vestem os uniformes de gala.
Os “tesouros da Igreja”, cálices, ostensórios, paramentos preciosos, de que tanto se fala, têm sobretudo um valor artístico. O seu valor material é muito menor do que costuma dizer-se. Repartindo o seu valor material entre os membros de uma pequena paróquia, corresponderia a cada um, alguns reais. Qualquer roubo sacrílego cometido nas igrejas acaba por convencer os inimigos da Igreja do valor ínfimo das suas mais valiosas alfaias.
Por que a Igreja não vende os seus tesouros?
Para a glória de Deus, os fiéis da Idade Média levantaram imponentes catedrais em vez de salas de reuniões provisórias. Gastaram às vezes séculos na sua construção, com grandes sacrifícios de trabalho e dinheiro. Os artistas de todos os tempos empenharam-se em adornar o melhor possível a casa de Deus, empregaram-se para mentos e objetos preciosos, executaram-se as cerimônias de culto entre cânticos e da maneira mais solene. Naturalmente, em casos de necessidade de para celebrar a Missa, bastam uma mesa e um copo. Assim se tem feito em casos de guerra, de perseguição e de prisões. Mas, normalmente, sempre se procurou celebrar o culto da forma mais digna e bel possível. Para Deus, o mais belo e precioso. Ou será melhor depositar o ouro nos bancos ou destiná-lo para brincos, colares, gargantilhas, broches, etc., e considerar como “uma desgraça” aplicá-lo ao serviço divino? Nós mesmos vamos “festivamente” às festas e não com a roupa habitual. Colocamos coroas caras nas sepulturas dos nossos mortos, por mais que os mortos estejam... mortos. Com o que se emprega no culto divino, a Igreja fala aos olhos, ouvidos e alma do homem, fazendo-o viver de alguma maneira a grandeza e a transcendência de Deus.
“Não é mais grato a Deus ajudar os pobres?”
Deus olha antes de tudo os sentimentos do coração e só em segundo lugar à solenidade exterior. Mas por que Deus ordenou na Antiga Aliança a Moisés que fizesse construir uma tenda tão preciosa para o Sancta-Sanctorum, se podia passar com qualquer outra? Por que Deus quis um templo magnífico em que se trabalhou durante sete anos e se empregaram madeiras ricas e metais preciosos? Cristo jamais se pronunciou contra a magnificência do culto divino; pelo contrário, chegou a chorar prevendo a ruína do templo.
Quando o frasco de nardo foi quebrado (com o valor de um salário anual, cfr. MT.,20,2) para ungir os pés de Jesus (Jn.,12, 3ss), Judas murmurou: “ Por que este desperdício? Podia-se ter vendido por trezentos denários e reparti-los entre os pobres”. Não faltavam pobres no tempo de Jesus, mas Este aprovou o “desperdício”. São João acrescenta que Judas não se tinha indignado porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão. Quando os bens da Igreja foram espoliados, os dinheiros dos cálices, custódias, quadros, etc., aproveitaram bem pouco aos pobres e foram parar em outros bolsos. Objetos das igrejas russas saqueadas chegaram ser vendidos a preços irrisórios (a maior parte deles não era cotada nem a “trinta dinheiros”!)
Por que esses tesouros não são vendidos?
É que seria preciso destruir as igrejas erigidas para a glória de Deus e vender os pedaços de mármore, como se fez outrora com os templos romanos, com grande escândalo dos historiadores da arte? As igrejas italianas, por exemplo, abundam em obras-primas insubstituíveis, que só os incultos ousariam vender. Ou seria preciso fazer um museu com todas elas? Evidentemente, nesse caso não seriam servidos os pobres. Mas, teríamos que preferir os museus às igrejas? Em tal caso, seria preciso também pedir aos Estados e às cidades que vendessem também as suas coleções de arte, as suas bibliotecas, os seus quadros, etc. Mas, (além de que; a quem seriam vendidos?) renderia esta venda apenas uma mínima parte da soma que “valem” esses bens culturais? E por fim: pode ou deve um povo, a Igreja, desfazer-se sem mais dos valores artísticos, históricos e espirituais por dinheiro? Certamente que em caso de necessidade a Igreja (temos exemplos na sua história) pode vender seus paramentos para aliviar as misérias e necessidades humanas.
Além disso, não é verdade que precisamente nas igrejas “pomposas” não deixa de se pregar o mandamento do amor ao próximo? Quem se sacrificaria sem o amor ao próximo? Precisamente os homens e as paróquias que gastam muito na dignidade e beleza do culto divino, dão também muito para os pobres. Deixando de lado as coletas da Caritas e muitas outras, pense-se nos milhões recolhidos para “O dia da fome no mundo”, etc.
Todos aqueles que se queixam da “magnificência do culto”, queixam-se também dos enormes gastos e fabulosos contratos das “estrelas”, dos jogos, ...? Há quem se enfureça pelo “telefone de ouro” do Papa (presente de um católico americano, do qual, provavelmente, quis desfazer-se). Esses terão também se lembrado de suscitar um movimento para que a rainha da Inglaterra venda todos os tesouros da coroa britânica para aliviar as pobrezas do Império? Mas que fazem eles em favor dos pobres? Só falar, e nem sempre?
Não devemos esquecer que quem desfruta dos edifícios, obras de arte e paramentos das igrejas é, em primeiro lugar, o povo. Dois terços do que se investe nas construções são para salários, e os materiais de construção também levam a sua parte.
Assim, muitos milhões passam para as mãos dos trabalhadores. Inumeráveis homens, operários, artesãos, arquitetos, artistas, cientistas, professores, médicos, vivem das instituições da Igreja.
*Do livro Fé e razão – perguntas e respostas, pgs. 229-238. Edições Cas, Braga, 1965. As atualizações de dados e o “abrasileiramento” de algumas palavras são nossos.